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HackTalks 2020

“A gente vê isso como uma oportunidade não só de aumentar a renda dessas famílias, mas também do consumidor ter acesso a algo tão exclusivo”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 9min de leitura

Paula Dias, do Grandpa Joel’s Coffee, conta em entrevista ao HackTalks como sua marca de cafés especiais atua de forma colaborativa com microprodutores para criar novos produtos. Vale conferir.

Conte-nos sobre a Grandpa Joel’s Coffee. O que é, e o que faz, exatamente, a empresa?

O Grandpa Joel’s Coffee industrializa e comercializa café da nossa fazenda e de pequenos produtores locais na região de Santa Rita do Sapucaí, MG (cidade onde acontece o HackTown, conhecida como o “Vale do Silício brasileiro”).

Nós torramos e prestamos serviço de torra, agregamos valor ao café oferecendo produto como cápsulas, licores, chás, geleias, artesanato. Nós também valorizamos as frutas características da região e do nosso pomar, em forma de doces, geleias, licores, sempre em parceria com pequenos produtores locais que agregam com seu conhecimento e tradição na produção. A gente entra com as ideias, modelos de negócio e ajudamos na apresentação do produto.

Para isso, vendemos B2B para diversas cafeterias no Brasil e mundo afora, além do B2C, para o qual de termos nosso próprio e-commerce, nossos coffee shops, um em Santa Rita do Sapucaí e outro em Santos (SP), e as duas coffee bikes nas quais rodamos eventos por todo lado.

Como surgiu a ideia? Por que café?

O Grandpa Joel’s surgiu de uma necessidade de ir de uma ponta a outra da cadeia do café sem intermediários. Para isso, foi necessário construir uma marca, criar um site e contar nossa história. Mas o sentido principal de se manter a fazenda de café, que naquele momento não dava lucro, foi emocional.

O Sr. Joel Dias, que chamamos carinhosamente de Grandpa Joel, pai do meu sócio e marido, Pedro Dias, sonhava em se aposentar e viver da cafeicultura. Já doente e debilitado, ele não conseguiu realizar seu sonho. Então a gente decidiu, por amor a essa tradição e ao Grandpa Joel, encontrar uma forma de manter vivo esse sonho. Foi assim que a gente começou tudo.

Como a empresa vem se desenvolvendo? E como ela é estruturada hoje em suas várias frentes de negócio?

A gente estruturou nosso negócio em quatro partes. Primeiro a fazenda, que mantivemos o nome original, Estância Sítio Capinzal. Em segundo a produção industrial, em que temos a torra de café para nossa marca e também para terceiros, e a artesanal, em que temos uma cozinha colaborativa que montamos em 2019, onde, em parceria com micro produtores da região, fazemos nossos doces, geleias e alguns outros produtos. Nós ainda disponibilizamos a cozinha para terceiros, para pessoas que tem talento mas não tem um espaço adequado em casa para produzir. A terceira frente é a de comércio e distribuição: nosso coffee shops, e-commerce, as bikes, as vendas B2B para outras cafeterias. A quarta frente é o turismo rural.

Como surgiu essa ideia das lojas próprias? E quais tem sido os principais desafios e conquistas nesse sentido?

Os nossos coffee shops nasceram de uma procura por franquias da marca. Hoje, eles funcionam também como um showroom para a apresentação dos nossos cafés e de produtos da região que levam a nossa marca. Já tínhamos esses produtos disponíveis nas coffee bikes, que foi onde iniciamos as vendas próprias, em eventos e feiras, e para venda a outros comércios que desejam revendê-los. Depois passamos a tê-los disponíveis também nas nossas próprias lojas.

Santa Rita do Sapucaí é uma cidade produtora de excelentes cafés. Ter um coffee shop aqui é um desafio, pelo nível dos nossos consumidores. isso nos fazer estar constantemente fora da nossa zona de conforto, inovando na produção e na apresentação do produto.

Há alguns anos, vocês foram convidados para o programa da Fátima Bernardes, na Globo, em função de serem pioneiros na questão da bicicleta. Como tudo isso aconteceu? E o que gerou de oportunidades para o negócio na época?

A Globo ligou pra gente logo depois da feira da Semana Internacional do Café. Demos uma entrevista pra eles via Emater, e logo depois vieram nos procurar para participar do quadro “criativos na crise”. Daí em diante, foi tudo muito rápido. E até hoje não parou. Estamos constantemente em um ritmo bem cafeinado! Desde lá, vieram várias parcerias, várias oportunidades, abrimos as duas lojas, nos apresentamos em eventos. Estamos em constante movimento, o tempo inteiro.

Estamos passando por um período complicado com a pandemia do Covid-19. Como isso tem impactado no seu negócio? E o que vocês tem feito para superar tudo isso?

O impacto foi grande. Nós paramos, respiramos fundo, e começamos avaliar novas oportunidades que essa realidade nos traria. Como dependemos muito das cafeterias que compram por atacado da nossa empresa, e são lojas físicas, o volume diminuiu muito. A partir disso, começamos a focar em fortalecer o delivery, que era um plano que tínhamos desde o início mas que pelo volume de vendas e a correria do dia-a-dia não nos dedicamos, e estamos super focados no e-commerce. Nesse caso, não só no nosso próprio e-commerce, mas também em parceria com grandes plataformas de venda online, como SENAR, Magazine Luiza, entre outros.

Na sua opinião, como o fato de estar em Santa Rita do Sapucaí (MG), cidade conhecida como criativa e inovadora, tem ajudado no desenvolvimento da empresa?

Estar em uma cidade criativa como Santa Rita faz a diferença em função da quantidade de eventos que existem e atraem pessoas de inúmeros lugares, como o próprio HackTown. Isso nos dá oportunidade de falar, de mostrar e de divulgar nosso trabalho para pessoas do mundo inteiro.

Você mencionou o leque amplo de produtos que possuem. Como surgem esses projetos? E como vocês gerenciam tudo isso?

A gente se baseia em pesquisas que fazemos. Construímos nossas ideias a partir disso, e convidamos terceiros para parcerias. A partir daí, fazemos uma adequação do produto ao perfil do nosso público e da nossa empresa. Não é fácil gerenciar tudo isso. É por este motivo que estamos sempre abertos aos sócios investidores. Assim não perdermos o foco do café e conseguimos manter tudo isso vivo.

Vocês tem uma relação bem sustentável com os pequenos produtores rurais da região de forma bem ampla, muito além do café? Conte-nos sobre isso.

Temos contato constante com esse produtores. São, em sua maioria, nossos vizinhos, que vão lá trocar ideia, conversar. A gente montou, por exemplo, o terreiro suspenso de uma forma bem econômica. Então eles foram lá pra ver como era feito, pra poder fazer também. Muitos deles não tem terreiro, é terra. Colocam o café direto na terra. Então, esse nosso projeto econômico, com bambu, foi uma oportunidade, uma forma diferente deles terem um terreno de qualidade e de valorizarem ainda mais o café que produzem. Isso é só uma de inúmeras coisas. Antigamente eles iam lá porque precisavam do nosso terreiro. Alugavam ou usavam nosso secador também. Então, de alguma forma a gente acaba ajudando com algumas ideias e na evolução deles, eles ajudam a gente. Então mantemos um contato bem próximo.

A gente se relaciona também com outros produtores por meio de feiras e eventos: feiras direto do produtor, feiras com o consumidor final, eventos com especialistas em café. A Semana Internacional do Café é um ótimo exemplo disso. Com todas essas viagens e todas essas oportunidades, a gente acaba vendo talentos que ficam restritos à famílias e amigos, que fazem coisas incríveis, mas apenas em casa. A gente vê isso como uma oportunidade não só de aumentar a renda dessas famílias, mas também do consumidor ter acesso a algo tão exclusivo. 

Um exemplo disso é o nosso licor. Eu conheci um produtor que fazia licor de café, aí perguntei se ele poderia fazer um com o nosso café. Mas logo pensei, por que não fazer o licor da casca do café?  E ele topou. A partir disso, fizemos um produto exclusivo no mundo do café. Aí, um dia percebi que ele andava com as colméias dele pra todo lado, e perguntei: você põe elas perto da flor do café? Ele respondeu que poderia, já que fica andando atrás das floradas. A fazendinha dele é bem pequena, um sitiozinho. Lá ele planta amora, e quando é época da florada de amora, ele coloca as colméias perto das amoras. Com essa ideia, ele passou a colocar também perto da florada do café. Sempre que consegue o mel puro da florada do café, ele me avisa e vou buscar, assim como o mel puro da amora, mas nada de misturas. E assim foi criada outra oportunidade: o mel da flor de café. Depois começamos a fazer parcerias com outros produtores e fomos expandindo as variedades. Neste momento, em função da época do ano, estamos comercializando o mel da flor da goiabeira e também da flor do café. É dessa forma que a gente tenta fazer em relação a tudo que se produz na fazenda e na região.

O design dos seus produtos é muito legal, tanto na logo, na identidade visual da empresa, como também nas embalagens. Na sua opinião, qual a importância do design nesse mundo do café? E como vocês lidam com isso no dia a dia da empresa?

Antes de consumir o produto, as pessoas consomem com os olhos. A apresentação, o capricho e a informação são detalhes que se destacam na prateleira. Então, quando a minha prima, que é designer nos EUA, foi desenvolver a nossa identidade visual, ela tomou o cuidado de pensar em todos os detalhes que compõem o café. Até a xícara do café que consta na nossa embalagem teve uma ideia interessante por trás. Eu sempre percebo que as pessoas cheiram a embalagem, que colocam a válvula perto do nariz, apertam o café e cheiram. Então tomei o cuidado de pedir pra que essa xícara do desenho ficasse exatamente em cima da válvula. A partir disso, quando a pessoa aperta para sentir o cheiro, o cheirinho da válvula sai exatamente no desenho da xícara. Acredito muito que são esses detalhes que fazem a diferença. O capricho, o detalhe em tudo, desde a embalagem até a produção, ao servir o café, de tudo a gente cuida com muito carinho.

Em uma das respostas anteriores, você mencionou o trabalho que fazem de turismo de café na região de Santa Rita do Sapucaí. Conte-nos um pouco sobre isso.

Desde que começamos, a procura pelo passeio na fazenda sempre foi muito grande. No entanto, como não estávamos bem preparados nem acostumado com isso, já que Santa Rita não é uma cidade com esse tipo de turismo, a gente não tinha essa experiência. Recebíamos o pessoal de forma informal, levávamos a cestinha de piquenique com cafezinho coado, uns biscoitinhos, pãozinho de queijo, um licorzinho. Aí a gente sentava depois do passeio e contemplava a vista, que é linda. Só que isso foi crescendo. Então, os próprios visitantes começaram a dizer, não é possível vocês não cobrarem por isso. E o número de visitantes não parava de aumentar. Chegamos a receber um grupo de 19 pessoas de uma vez só, o que pra gente é bastante. 

A partir disso, passamos a organizar mais este roteiro, com início, meio e fim. Os passeios ganharam tempo e roteiros determinados, tem café da manhã e almoço de alta qualidade só com produtos nosso e de outros produtores locais. Incorporamos até um workshop de café. Na época da colheita, é possível acompanhar as etapas de colheita, de lavar o café, de rodar o café no terreiro. Essas experiências nos fizeram concluir que é isso que o pessoal realmente quer vivenciar. É um turismo de experiência.

Estávamos com tudo pronto para entrar nessa nova fase, agora no início da colheita, em maio, oficialmente no dia nacional do café. No entanto, com a pandemia, os nossos planos mudaram. Mas tudo bem, a gente ainda tem os planos, né? Depois quando tudo isso passar, vamos organizar tudo certinho para poder receber as pessoas o ano inteiro.

O que podemos esperar para o futuro? Quais são os planos que você já pode contar?

O grande plano é o turismo de experiência, um dos nossos focos no momento. Também temos vários outros planos e ações ligados tanto ao aprimoramento como em novas possibilidades ligadas ao e-commerce e ao delivery, assim como a divulgação de tudo isso. A gente tem muitas ideias e projetos na manga, sempre aguardando o momento certo e o parceiro certo.

Pra finalizar, que aprendizados você teve até o momento e que daria de conselho a quem está entrando agora no ramo do café?

Bem, o mercado do café especial é muito sofisticado e inovador. É um mercado inteligente com consumidores exigentes. Os profissionais precisam ser altamente treinados e capacitados, Acho que isso é um bom começo.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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1 Comentario

  1. Afonso

    8 de julho de 2020 at 08:18

    Achei muito legal e interessante a história do Grandpa Joel’s Coffee. Parabéns pela entrevista e pelo blog. Estou curtindo muito.

    Responder

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