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HackTalks 2020

“Alguns países perceberam a potência desta influência internacional, muitas vezes chamada de soft power”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 4min de leitura

Conversamos com Eric Klug, presidente da Japan House, sobre a presença do projeto no Brasil, de soft power, e do futuro dos museus. Confira.

Conte-nos sobre você e sua carreira.

Sou formado em Engenharia Mecatrônica pela Politécnica da USP mas sempre amei as artes e acreditei no seu poder de transformação. Refiro me ao poder de abrir novas perspectivas de vida para indivíduos e comunidades, de colocar o mundo e as nossas certezas sob uma outra ótica e abrir possibilidades de sermos melhores e mais felizes. Sei que parece bastante ambicioso mas acho que as artes tem esta potência.

 Após uma carreira de poucos anos como engenheiro em multinacionais, fui produtor de grandes eventos internacionais e promotor de concertos no Brasil e Reino Unido. 

 Acabo de assumir a presidência da Japan House São Paulo, uma iniciativa do governo japonês que estabelece vínculos com o Brasil em uma ampla gama de áreas como artes, educação, esportes, gastronomia e mostra no Brasil o Japão de hoje.   

A primeira Japan House do mundo foi inaugurada no Brasil em 2017, em um lindo e moderno prédio na Avenida Paulista desenhado pelo arquiteto japonês Kengo Kuma. Hoje, há também uma unidade em Los Angeles e outra em Londres. Conte-nos um pouco sobre o projeto, de forma geral.

Japan House São Paulo, na Av. Paulista

É uma iniciativa do Ministério das Relações Exterior do Japão e do Primeiro Ministro Shinzo Abe para gerar e fomentar o interesse de indivíduos, empresas, artistas e formadores de opinião em estabelecer e/ou reforçar laços duradouros entre estas nações. É uma iniciativa bastante inovadora pois usa o poder da comunicação digital, o foco em cidade e não em países e uma ampla gama de áreas do conhecimento além da língua e artes.

Por que a escolha do Brasil para iniciar tudo isso?

A escolha de São Paulo se colocou devido à relevância desta cidade no panorama mundial e  da existência da maior comunidade de descendentes de japoneses do mundo. O sucesso foi imenso, com mais de 2 milhões de pessoas visitando nossa sede em apenas 3 anos de operação.  

A Japan House é um projeto ligado à cultura milenar de uma nação, no caso o Japão. Por que esse investimento em levar a cultura japonesa para outros países? Qual o objetivo de ações deste tipo, realizadas por nações, geralmente potências mundiais?

A Japan House é ligada aos aspectos atuais e contemporâneos de uma cultura milenar. Alguns países perceberam a potência desta influência internacional, muitas vezes chamada de soft power, como a França, Espanha, Reino Unido e Alemanha. Com a Japan House, o Japão se junta a estes países nesta cooperação internacional que beneficia tanto o Japão quanto o Brasil, Reino Unido e Estados Unidos.

Você mencionou na pergunta anterior o conceito de soft power, pode nos contar um pouco mais sobre ele?

O conceito de soft power foi criado pelo americano Joseph Nye nos anos 80 para descrever iniciativas governamentais de diplomacia cultural como as do Instituto Francês, Instituto Goethe ou Conselho Britânico. Ele definiu restrições e incentivos Alfandegários, Migratórios e ações Militares como hard power e os processo de influência através da Educação, Arte, Cultura, Esportes e Língua como soft power.

Como é feito o processo de curadoria na Japan House? E como a inovação e a tecnologia estão presentes em tudo isso?

A curadoria é feita de maneira compartilhada entre nosso time local e no Japão estabelecendo tanto o que há de mais interessante e inovador no Japão tanto o que interessa ao público brasileiro. A tecnologia e inovação não constitui uma área separada mas permeia todas as nossa atividades como o edifício sustentável com certificação LEED Platinum, a identificação eletrônica dos visitantes e as exposições dedicadas a mostrar a rica diversidade cultural do Japão, incluindo design ou tecnologia alimentícia, têxtil.

No mundo das artes, é cada vez mais comum a presença de marcas financiando exposições, trabalhando branded content, entre outras práticas. Como vocês se relacionam com as marcas? E mais, como vem sendo a atuação das marcas em relação a projetos culturais, de forma geral, no Brasil, ao seu ver?

Temos empresas como nossas mantenedoras incluindo a NEC, Canon, Ajinomoto, Mitsubishi Electric, Intercontinental e Takasago que não somente nos apoiam mas com quem criamos projetos inovadores como o Conexões JHSP, que reúne CEOs de empresas para discutir assuntos como segurança digital ou conectividade ou ações ligadas ao quinto sabor, o Umami com a Ajinomoto.

Trabalho há muito anos com patrocínio corporativo das artes e acho que na imensa maioria dos casos estas interações são muito positivas para ambas as partes. Poder associar uma marca às experiências transformadoras proporcionadas pelas artes.

Conte-nos mais sobre isso. Por que as marcas devem investir em cultura?

Por várias razões, dentre as quais geração de awareness em segmentos específicos da população, participação na vida de seu público alvo em momentos de prazer e alegria, pela responsabilidade que as marcas devem ter com o desenvolvimento do país, retorno social às comunidades específicas onde atuam e fortalecimento de sua reputação no setor cutural.   

Estamos vivendo uma época desafiadora, que tem demandado muitas mudanças e desencadeado várias transformações, com a pandemia do covid-19. Como isso impactou a Japan House. E o que tem feito para superar tais desafios?

Estamos em plena atividade no mundo digital com o desenvolvimento de novos conteúdos para públicos antigos e novos e nos preparando para a reabertura que se aproxima. Faremos este retorno com equipamentos e protocolos rigorosos mas não nos esqueceremos do crescimento e expansão digital que estamos desenvolvendo desde março. Portanto, o público será maior no futuro, adicionando um enorme mundo digital ao nosso já desenvolvido alcance presencial.

Como você vê o impacto dessa crise nos museus e galerias, de forma geral? E quais tem sido as ações mais interessantes que você tem visto mundo afora, como tentativas de superar as dificuldades e aproveitar as novas oportunidades que surgem?

Ressalto iniciativas como a nossa Experiência JHSP Online: um encontro com o Japão em casa em que pessoas receberam um kit e prepararam drinks e aperitivos em uma live ao mesmo tempo em que aprenderam sobre conceitos e cultura japonesa. 

Outra iniciativa muito louvável é o Google Arts & Culture que acolhe exposições online de mais de dois mil museus. 

Pra finalizar, qual o futuro dos museus, na sua opinião? O que vem pela frente, ao seu ver?

Prevejo museus com maior presença digital e relevância social. Estabelecimentos que mais do que um espaço para se visitar, se configuram como espaços de educação, manifestação política, transformação social, inovação e criação artística. 

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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