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HackTalks 2020

“Coloque as pessoas no centro e deixe que elas construam a cidade”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 9min de leitura

Conversamos com Marcelo Educa, pesquisador que acaba de lançar um documentário sobre um dos projetos de cidades criativas mais inovadores do mundo, o “Cidade Criativa, Cidade Feliz”, em Santa Rita do Sapucaí, MG. Vale a leitura.

Como surgiu a ideia do documentário? Conte-nos um pouco sobre ele.

A ideia do documentário (que pode ser visto neste link) surgiu no meio da atividade de campo do meu mestrado que está atualmente em fase de qualificação. Estudo em um programa de mestrado interdisciplinar na Universidade Federal de Itajubá MG, que estuda Desenvolvimento Tecnologias e Sociedade.  Dentro dele, meu objeto é o movimento “Cidade Criativa, Cidade Feliz” enquanto um dispositivo de comunicação da cidade de Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, e um exemplo para o mundo.

Foi neste cenário que me enveredei como pesquisador e que também parte reproduzi no documentário. Mas por que decidi fazer um documentário ao invés de ficar apenas na dissertação que encara isso com um viés epistemológico de uma filosofia da comunicação? Explico.

Eu já estava coletando alguns insights interessantes e construindo a escrita quando me questionei sobre a entrega final, ou seja, a dissertação. Que público lê uma dissertação? É um público muito específico e talvez seja por isso que discursos que defendem que a academia não entrega resultados para sociedade façam sentido para muitas pessoas. Na maioria dos casos a escrita acadêmica não é empática, não fala uma linguagem que desperta o interesse das pessoas e acaba ficando presa numa bolha de pesquisadores. Então a ideia do documentário foi pegar fragmentos da dissertação e testar um formato de entrega diferente, de maneira que engajasse as pessoas a tocar no conteúdo de uma maneira “atraente” e com isso provocar reflexões sobre esse contexto de cidades, sobretudo de cidades criativas.  

O que caracteriza uma cidade criativa, ao seu ver?

Uma cidade criativa para mim é aquela que consegue aplicar (organicamente ou não) ao que se assemelhe com o manifesto ágil (tão utilizado pelos processos de inovação de culturas empresariais). Em outras palavras, ela deve ser uma cidade capaz de pensar ações que promovam mais as pessoas e suas interações do que focar em processos administrativos de gestão, que conseguem encarar a cidade como um hardware cheio softwares plugados nela e, neste sentido ser mais capaz de aprimorar seus softwares do que se preocupar com a composição de documentos (leis, decretos, comissões) abrangentes.

Ela precisa pôr a mão na massa, testar e depois documentar. Ela precisa de maior colaboração com o cliente (o cidadão) do que ficar negociando com ele e gerindo conflitos o tempo todo. Por fim, ela precisa muito mais responder rápido as mudanças do que ficar seguindo um plano.

Como você definiria o movimento “Cidade Criativa Cidade Feliz”?

O “Cidade Criativa, Cidade Feliz” se mostrou um objeto fascinante e complexo que, de modo sucinto enxergo como uma tecnologia de comunicação com alta capacidade de engajamento. Ele surgiu em 2013 como uma proposta de festival com conhecimentos diversos que tratavam sobre tecnologia, inovação, criatividade cultura. 

Ao longo dos anos ele cresceu numerosamente e o projeto inicial que foi de 3 dias, atualmente está presente no cotidiano da cidade e promove atividades por mais de 130 dias no ano. Isso fez com que ao longo desses 7 anos promove transformações culturais locais e mudanças de hábitos que catalisaram novos negócios e ativassem ações que de alcance nacional e internacional. Dentre tantas ações, o “Cidade Criativa, Cidade Feliz” foi um grande influenciador do HackTown, por exemplo, hoje um dos maiores festivais de inovação do mundo. 

Só em 2019 o HackTown foi capaz de mover mais de 7 mil pessoas para dentro de Santa Rita do Sapucaí que tem pouco mais de 40 mil habitantes, ou seja, ele trouxe mais de 15% do número de habitantes da cidade. Além disso, os conteúdos e atividades apresentadas pelo HackTown são temas vanguardistas em várias esferas e que sobretudo evidenciam o protagonismo das pessoas que impulsionam esses temas no Brasil e no mundo. Esse é o maior case do “Cidade Criativa, Cidade Feliz”, mas não é o único. Existem inúmeras atividades transformadoras de hábitos que foram e estão sendo provocadas por esse movimento ao longo de seus sete anos. 

Em suma, o “Cidade Criativa, Cidade Feliz” é uma ferramenta (que na linha epistemológica do trabalho trato como microdispositivo), um instrumento de interlocução e ativação de algo que considerei como um ‘Cuidado com a Cidade’. Assim como a criação da ETE e das demais escolas de ensino superior da cidade e depois o “Vale da Eletrônica”, o “Cidade Criativa, Cidade Feliz” atua como um intermediário de comunicação de um conjunto de estratégias que ao longo dos anos procuram “cuidar da cidade”.

Como esse tipo de movimento se difere do que tem sido feito em outras cidades do país?

A grande diferença entre o movimento de Santa Rita do Sapucaí e outras cidades do Brasil está na consistência desse movimento. Como isso vem acontecendo desde o movimento que cria e consolida a Escola Técnica de eletrônica (ETE) cunhada por uma mulher no final dos anos cinquenta do século passado, a cidade assimilou esse entendimento de ‘Cuidado’ que, a cada sinal de estagnação se reinventa e ressurgia com um novo movimento para responder melhor as novas necessidades impostas, sejam elas sociais ou econômicas. 

O movimento de Santa Rita do Sapucaí tem mais de 60 anos e a cidade compreendeu isso de tal maneira que nem disputas políticas que podem acontecer nos bastidores da cidade são capazes de interferir esse movimento e mudar seu curso. 

Isso é muito difícil de acontecer, quase sempre a maneira de fazer políticas públicas em uma cidade deixa que projetos políticos de grupos interfiram na continuidade de projetos que poderiam dar ótimos resultados a longo prazo.

Qual o impacto de um movimento como o “Cidade Criativa, Cidade Feliz” na qualidade de vida dos moradores de uma cidade? E no socioeconômico?

Se encarado, entendido e incorporado como um projeto de longo prazo, os impactos sem dúvida alguma são profundos. Porque um projeto como esses se faz na prática do cotidiano, ou seja, precisa ter alta capacidade de adaptabilidade permitindo que, com o tempo, as transformações ultrapassem a exclusividade da esfera econômica e impactem o social. Isso porque um movimento dessa natureza promove uma transformação de cultura. A cultura da cidade vai mudando aos poucos, então o impacto é inegável, desde que entendido que ele é construído num modo Step By Step.

Quais outros pontos ligados ao “Cidade Criativa, Cidade Feliz” que mais te chamaram a atenção e que valem a pena serem ressaltados aqui?

A não preocupação inicial com métricas me chamou muito atenção. Acho isso fantástico! Normalmente preocupa-se muito com metrificar resultados e isso atrasa construções e ainda pode ‘travar’ iniciativas mais orgânicas.  Só agora, no início de 2020 que ouvi pela primeira vez pessoas falarem sobre a “necessidade” de métrica. Isso é o tal do comportamento ágil aplicado em uma (por uma) cidade. Primeiro atualizo o software, depois documento. 

Outro aspecto que sem dúvidas é muito importante no modelo do “Cidade Criativa, Cidade Feliz” é a capacidade que ele tem de integrar atores e sujeitos que entendem esse movimento como um movimento que não tem “dono”, mas uma rede de cuidadores. Por mais que o poder público cumpra um papel muito importante, essa ideia de cuidadores se aplica muito bem. Isso amplifica o engajamento das pessoas, o que é fundamental para rodar um projeto assim.

Ao seu ver, como um movimento deste tipo pode ajudar uma cidade a reter e atrair talentos criativos?

Isso acontece e continuará acontecendo na medida em que o movimento alcança mais pessoas e se internaliza no cotidiano da cidade. Talentos virão, mas mais do que isso, talentos podem ser descobertos dentro da própria cidade. 

Um observatório pode ser uma boa. Colocar os diversos atores locais para observar e aprender com os próprios movimentos da cidade, estudando internamente os modelos que façam mais sentido para atrair e fomentar talentos criativos e desenvolver cadeias criativas. Um observatório pode ajudar a entender a dinâmica criativa da cidade e dialogar ainda melhor com ela.  

Quais são os desafios futuros do “Cidade Criativa, Cidade Feliz”, na sua visão? E como você vê o impacto de longo prazo de tudo isso?

Estamos no meio de uma crise sanitária global que, no caso do Brasil revela o tamanho e profundidade de nossa crise social. Acho que o desafio mais que atual do “Cidade Criativa, Cidade Feliz” é perceber como isso está impactando as diversas camadas da cidade e como isso pode ser atendido agora. 

Com isso, quero dizer que o desafio é lidar com esse problema atual de modo que alguns ciclos de desenvolvimento talvez tenham que ser encurtados e parte daquilo que nasceria no futuro, talvez precise nascer agora. Neste caso o desafio é realizar o “parto” com cuidado, posto que não é natural e precoce. 

Mesmo assim, acho que o impacto a longo prazo do “Cidade Criativa, Cidade Feliz” está muito presente na fala do artista Diego Dais, que no documentário fala das novas gerações. As gerações que estão nascendo na cidade e vivenciando o “Cidade Criativa, Cidade Feliz” vão projetar a cidade do futuro com o repertório oferecido pelas vivências do agora, assim como as pessoas que atuam no “Cidade Criativa, Cidade Feliz” o desenham influenciadas pelas vivências oferecidas pelos movimentos realizados por Sinhá Moreira ao criar a ETE e pelos movimentos influenciados a partir da criação do “Vale da eletrônica”.

Na sua opinião, o que é ser uma cidade feliz? E como esse conceito de cidade criativa pode ajudar nesse sentido?

Para mim, de fato é uma utopia. A felicidade é a cenoura que estamos sempre perseguindo. O tempo todo temos sensações que nos fazem acreditar que alcançamos e algumas vezes alcançamos. Mas no dia seguinte lá estamos nós, correndo atrás de outra cenoura. 

Agora, uma cidade pode ser mais “feliz” quando ela se entende, quando seus citadinos se entendem e entendem a própria cidade. Conhecem os serviços que ela oferece e sabem como usar, mais do que isso, sabem que podem usar, com cuidado, mas sem restrições de fundo social e econômico. Essa felicidade pode estar ligada a qualidade de vida, mas essa qualidade de vida precisa ser para todos, portanto, uma cidade feliz pode ser aquela que quando enxerga um abismo social age imediatamente para encurtar suas distâncias.

Pra finalizar, quais são aprendizados que você teve ao longo desse estudo que gostaria de compartilhar com cidades que desejam criar movimentos ou se desenvolver como uma cidade criativa?

O primeiro deles sem dúvidas é: Não tente aplicar o “Cidade Criativa, Cidade Feliz” na sua cidade! O risco de não dar certo é muito grande. 

Santa Rita do Sapucaí pode ser um observatório para outras cidades, mas cada cidade deve olhar para dentro de si mesma e se entender. Qualquer projeto desses se dá na prática do cotidiano, só assim é possível promover mudanças que precisam acontecer de modo empático, então é preciso entender os territórios empáticos que são próprios de cada cidade.

Segundo é: Aprenda sobre comportamento ágil e aplique esse comportamento desde a esfera pública até as organizações da sociedade civil e privada. Para isso, encare a cidade como um “hardware” e a partir disso descubra quais são os “softwares” que podem auxiliar um “upgrade” mais sustentável.

Terceiro: Entenda que a cultura é um instrumento poderoso, tanto suas manifestações materializadas através de produtos e serviços, quanto na construção de hábitos. Coloque a cultura de frente com o planejamento e então pense as ações a partir do que isso revela. Não tenho dúvidas de que vai fazer muito mais sentido, porque cultura é pele, superficial e profunda.

Por fim, coloque as pessoas no centro e deixe que elas construam a cidade. Elas já fazem isso, mas é preciso harmonizar esse processo. Elas são os grandes especialistas, se isso não for considerado, nem um projeto dá certo por muito tempo.

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Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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