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HackTalks 2020

O novo normal é realmente novo?

Camila Andrade
Camila Andrade 3min de leitura

Eu tenho certeza que não! Se você ou sua empresa foram surpreendidos é preciso repensar.

As pessoas têm refletido muito sobre as mudanças na vida, sobretudo no que se refere a relação com o trabalho e o consumo. O termo novo normal até já virou clichê, mas eu fico pensando: será que tudo isso é efetivamente novo? Me gera uma certa estranheza essa ideia. A mim parece que o novo está mais no fato de as pessoas enfim incorporarem algumas mudanças na sua vida (e foi goela abaixo…) do que uma novidade em si. E fazendo um recorte para o universo do trabalho e das empresas essa constatação me faz confirmar a ideia, que também não é nada nova, de que já faz tempo que o discurso e a prática estão descolados e ninguém trata disso com a seriedade que seria necessária para resolver muitas questões corporativas que desde sempre são importantes mas seguem ali debaixo do tapete.

Acho bem curioso que sei lá há quantos anos eventos e festivais de inovação sejam lotados de executivos e o discurso das soft skills estejam super incorporados no léxico corporativo: “As empresas buscam perfis resilientes, dinâmicos, conectados…” – esse tipo de frase é mais que comum nos fóruns e publicações de RH. Em tese, as empresas já contratam gente assim faz tempo, sobretudo para posições de liderança, e treinam os times nessas competências investindo algum dinheiro com consultorias que prometem desenvolver tais características em sala de aula.  Ao mesmo tempo, termos como consumo consciente, digitalização, propósito já estão mais do que gastos de tanto que foram usados para enfeitar o discurso do universo dos negócios. E aí, vem uma pandemia, uma situação improvável (mas não inesperada) e tira todo mundo da zona de conforto, passa a exigir resiliência, capacidade de inovar, dinamismo, estruturas digitais, etc, etc… as empresas são colocadas em cheque, muitas se desmantelam, as pessoas ficam em choque e começam a chamar de novo tudo aquilo que o desafio impõe.

Por que será que há tempo falamos e investimos em inovação, transformação, soft skills, mas na hora que chega o momento em que efetivamente somos demandados parece que poucos estavam preparados?

Na minha perspectiva é porque nos acomodamos nesse lugar da pouca responsabilidade de ter coerência entre aquilo que acreditamos e a forma que nos colocamos no mundo (aquilo que fazemos e dizemos) seja no universo do trabalho ou da vida pessoal. Acho que esse é o chamado que simbolicamente essa pandemia está nos fazendo: compromisso com a verdade e a coerência.

Todo mundo sabe que o sanduíche do comercial não é igual a aquele que compramos na rede de fast food e tudo bem. Que aquele produto de beleza com princípio ativo x revolucionário tem só o aroma do que está escrito na embalagem e mesmo assim a gente vende e compra repetindo a ideia que o comercial falou. O cara do marketing e o da agência sabem que o discurso de venda é incrementado para convencer (ou enganar) o consumidor, mas faz parte do jeito que o mercado opera. Todo mundo sabe que os valores na parede da empresa não são exatamente os praticados pelo RH e que a maioria dos líderes das empresas chegou onde chegou por saber jogar o jogo corporativo e não exatamente pelo que é exigido para função e tudo bem. “O mundo é assim mesmo…” é frase comum e explica uma série de conflitos que vivemos. A empresa Y tem vários processos questionáveis e que impactam a vida das pessoas e o tecido social de forma bastante negativa, mas quem trabalha lá nem pensa muito sobre isso, afinal todo mundo precisa trabalhar e não vai ser uma pessoa que vai mudar o mundo… E assim a gente vai se acostumando e fazendo as concessões que nos trouxeram até aqui… um aqui que me parece consenso não é nada legal.

E aí, de repente, tudo parou e fomos obrigados a encarar de frente as nossas incoerências e inconsistências, seja das nossas vidas ou dos nossos negócios. Percebemos quão insustentável é para o planeta e nosso psiquismo a sociedade que constituímos, como o teatro corporativo, a mentalidade do lucro acima de tudo, a ganância e a tirania dos ciclos trimestrais nos sacrificam. Como os relacionamentos que cultivamos são frágeis, qual o tamanho e a importância da família, das parcerias, dos amigos, daqueles com quem compartilhamos nosso tempo. Nada novo nos foi imposto… só o jeito olhar. Essa pandemia só nos obrigou a enxergar um monte de coisas que já estavam aí faz tempo.

De uma coisa eu sei, as mudanças costumam ser proporcionais aos traumas e nascem a partir de como os desafios são vividos. São os aprendizados desse momento que servirão de base para o futuro que vamos construir e que vai ter o contorno que a gente escolher. E aí, o que você e sua empresa vão fazer com tudo isso?

Camila Andrade

Curadora e social media designer do HackTown / Founder e Designer de Informação no Studio Quindim / Consultora

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2 Comentarios

  1. Francine Forte

    2 de julho de 2020 at 19:55

    Camila, muito boa sua colocação . Esse rebuliço de acontecimentos nos vira do avesso para que pensamentos, crenças, significados , inovação e a tão comentada resiliência se tornem atitudes e transformem ações em algo pertinente e justo aos respectivos valores..
    Acordar para muitos.!
    Concordo quando você cita que desafios são importantes e alavanca para futuros resultados positivos. Mas as pessoas têm que optar por isso.
    Senao..pandemia passa..e para muitos ..nada muda…infelizmente…
    No entanto acredito muito na maioria que está se desenvolvendo nesse momento, procurando recursos internos e externos (mesmo que seja uma leitura e uma boa questao) para aplicar e melhorar não só para si mas com.aqueles que esta ligada e ou que se sente responsável.
    Continuemos assim, mesmo em.pequenas proporções a desenhar, alinhar, convidar o outro para que esteja em parceria nesta construção.
    Outras virão.
    Sucesso Camila!

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  2. Cursos Online

    29 de julho de 2020 at 11:12

    Parabéns pelo conteúdo do seu site, sou a Camila Da Silva gostei muito deste artigo, tem muita qualidade vou acompanhar o seus artigos.

    Responder

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