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HackTalks 2020

“Para haver chances de viabilizar um filme ou série, o foco deve ser de 80% no roteiro e os outros 20% na estrutura do roteiro”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 7min de leitura

Conversamos com Sergio Pizzolante, produtor executivo de séries e filmes, entre eles,“Nicky Jam: El Ganador”, da Netflix, sobre produção executiva, as produções que esteve envolvido, e muitas dicas para novos produtores e cineastas que desejam emplacar seus projetos. Confira.


Conte um pouco sobre você e sobre a sua carreira.

Sou executivo de cinema e TV, atualmente focado em descobrir, desenvolver e produzir histórias com DNA latino, só que com temas universais e principalmente histórias e personagens positivos. Afinal, o mundo já tem porcarias demais sobre narcos e bandidos latinos.

Antes disso, trabalhei por 20 anos em empresas como HBO Latin America, Sony Pictures Entertainment América Latina e Brasil e E! Networks Latin America & Brazil, em funções que foram de vice-presidente de programação à gerente geral de 4 canais de TV: Sony Entertainment Television, AXN, Animax & E! Entertainment Television.

Como você entrou para esse mercado?

Tive muito sorte nesse aspecto. Eu tinha uma formação em negócios com ênfase em marketing e, em meados dos anos 90, fui trabalhar na RCTV, uma emissora local na Venezuela. Naquela época, era comum os executivos de marketing fazerem transições para a parte de aquisição e programação. E acabei sendo contratado para o departamento de programação da Sony Entertainment Television, que felizmente para mim, tinha, naquela época, sua sede em Caracas.

Como produtor executivo, quais são geralmente as suas responsabilidades nos filmes e séries? O que você faz, na prática?

Os produtores executivos se focam principalmente nos aspectos comerciais de uma produção de filme ou TV. Esse papel varia, mas, em termos gerais, são responsabilidades de produção não relacionadas ao roteiro. 

Na indústria cinematográfica, produção executiva geralmente se refere aos financiadores e executivos envolvidos na captação de capital. Na TV, aos responsáveis pela realização do projeto, desde o estabelecimento do modelo de negócios com todas as partes envolvidas, à procura de co-produtores, contratação de roteiristas, funcionários da equipe, e até mesmo vendê-lo a um comprador. Às vezes, as pessoas confundem o Produtor Executivo com o produtor  responsável pela produção física, como locações, câmeras, luzes etc.

Você é o produtor executivo de “Nicky Jam: El Ganador” da Netflix, de “Maluma” do YouTube Originals, está trabalhando em um projeto sobre um dos artistas mais emblemáticos da América Latina, José Luis Rodriguez, “El Puma”, e também em um projeto sobre a história da Fania Records, entre diversos outros. Por que tantos projetos relacionados à música? O que a música significa pra você?

Minha paixão sempre foi a música. No decorrer da minha carreira em redes de TV, eu sempre procurava oportunidades para desenvolver conteúdo relacionado à música. A Sony Entertainment produziu quatro temporadas do Latin American Idol e outros shows. Na E! lançamos a primeira série roteirizada para jovens adultos, um programa musical chamado “Wake Up with no Make Up”.

Acredito que a música é uma linguagem universal, que transcende idade, sexo, religião, opiniões políticas e status econômico, mais até que o esporte, que é um campo mais masculino. Dito isto, não se trata de um cheque em branco onde todo artista é digno de um show, filme ou documentário. Nosso foco é sobre o artista que teve que superar situações incríveis, aqueles que combinaram um talento único com trabalho duro, esforço, aqueles que enfrentaram demônios ou contratempos, e que foram capazes de superá-los. Acima de tudo: são modelos positivos para as gerações futuras.

Como surgiu a ideia para a série”Nicky Jam: El Ganador”, sucesso absoluto no Netflix? E como você se envolveu no projeto?

Nicky Jam é um daqueles artistas que vieram de origens extremamente humildes, com um núcleo familiar disfuncional. Depois que seu pai escapou de uma situação complicada nos Estados Unidos, foi para Porto Rico. Uma vez lá, Nicky descobriu o que significa ser latino, encontrou um sucesso incrível. então perdeu tudo por estar perto das pessoas erradas e do abuso de substâncias. Das suas cinzas, ele foi capaz de elevar-se a lugares ainda mais altos, controlando seus demônios, pagando sua dívida com a sociedade, ficando sóbrio e trabalhando muito mais do que seus pares. É isso que faz uma história universal, a construção da melhor versão de nós mesmos e muito trabalho duro. Nicky é uma inspiração para crianças de todo o mundo.

Fiquei atraído pela história e encontrei uma maneira contactar Nicky. No processo, conheci a incrível diretora Jessy Terrero. Juntos, levamos esse show da ideia ao produto final. Eu não conseguiria ter feito o show sem a visão dele e a total confiança que Nicky tem em Jessy. Depois que tínhamos um plano, o levamos até a EndemolShine Boomdog, que apresentou o projeto à Netflix e aos outros parceiros. 

Quais foram os principais desafios para a produção de “Nicky Jam: El Ganador”?

“Nicky Jam: El Ganador” foi filmado em 4 cidades: Nova York, Medellín, Cidade do México e San Juan, Porto Rico. Este foi um desafio por si só. Raramente um programa de TV em espanhol busca essa excelência. Outro desafio foi o elenco. Queríamos autenticidade e, por isso, escalamos artistas de música urbana porto-riquenha para trazer realismo, e isso funcionou em todos os níveis.

Não é tão comum ter a pessoa retratada em uma série ou filme desempenhando seu próprio papel. Como foi ter o próprio Nicky Jam como ator?

Desde o início, Nicky nos disse que queria expandir suas habilidades de atuação. Neste momento ele já estava no “XXX” com Vin Diesel e foi selecionado para “Bad Boys for Life”. Ficamos muito felizes em ter acesso a ele e isso deu à série um elemento adicional.

O que você mais gosta na história de Nicky? E que lições as pessoas podem tirar disso?

Nicky é a fênix conceitual, ressuscitando das cinzas. A maior proposta que queríamos transmitir: não importam as probabilidades e os desafios, o caminho é trabalho árduo, com foco, com um sonho grande e muito esforço. 

Teremos uma segunda temporada?

No momento, estamos negociando uma segunda temporada.

Dos projetos futuros, há algum que você possa nos antecipar?

Fania All-Stars é o grande projeto para 2021. Fechamos o acordo com o escritor / diretor que desenvolverá o programa. Também há uma série de terror na Espanha em parceria com o Secuoya Studios. Aliás, muitos outros projetos serão anunciados ainda esse ano.

Depois de tudo isso que nos contou, volto a uma pergunta mais geral: qual a sua abordagem de desenvolvimento? O que você procura em um roteiro ou em uma história?

A execução é tudo e o roteiro é a validação final do projeto. É difícil explicar exatamente qual é a importância disso. Uma boa premissa é algo tão bom mas ao mesmo tempo inútil sem desenvolvimento. E o desenvolvimento sem o roteiro não vale nada. 

Para haver chances de viabilizar um filme ou série, o foco deve ser de 80% no roteiro e os outros 20% na estrutura do roteiro.

Esse talvez seja o maior desafio que enfrento com jovens produtores. A estrutura do roteiro é fundamental. Se você não respeita ou não conhece o ofício, é muito difícil conseguir uma empresa que vai querer estar por trás do show.

Quais são alguns erros comuns que novos produtores cometem no processo de criação, produção e lançamento de um filme ou série?

Eu comparo o desenvolvimento de programas de TV por novos produtores com o ato de cantar no chuveiro. As pessoas superestimam a qualidade das suas idéias e a necessidade de desenvolver um roteiro estruturado sólido e bem escrito. As pessoas têm essa visão míope de que assistir muita TV os qualifica como criadores. 

Minha recomendação: leia muito sobre o desenvolvimento do roteiro. Não há muitos livros bons sobre o assunto, mas é um começo. E leia o maior número possível de roteiros. Tudo o que você puder obter, especialmente de filmes e, em seguida, dos pilotos que foram feitos para eles. Além disso, é importante ficar claro que uma masterclass na Internet com duração de 3 a 5 horas não conta como treinamento. Pode ser apenas inspiração, na melhor das hipóteses.

Para o novo produtor ou cineasta que está entrando no ramo do entretenimento hoje, que conselho você daria para ajudá-lo a ganhar força, arrecadar dinheiro e lançar seus projetos?

Fique de olho nas tendências de mercado, respeite o ofício. Fazer um show ir ao ar é extremamente difícil. Mesmo programas que não tiveram aprovação popular tiveram que ser feitos e refeitos inúmeras vezes. 

Não discuta com o sucesso. Se há um programa que você gosta, descubra como foi feito, não no sentido de produção, mas como ele se uniu: o processo, os parceiros, a seleção de diretores, o elenco, as histórias.

Depois de tudo isso: foque, trabalhe duro no seu projeto e faça acontecer.

Pra finalizar, quais os seus filmes e séries favoritos de todos os tempos?

Em filme, Star Wars: Episódio IV (que era o oito quando foi lançado. Em TV, a lista é longa, mas se destacam Seinfeld, Lost, The Office e Game of Thrones.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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