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HackTalks 2020

“Quando eu comecei a viajar para os eventos fora do Amazonas percebi que tinha uma distorção pelas piadas e perguntas que as pessoas faziam”

Camila Andrade
Camila Andrade 8min de leitura

Conversamos com Macaulay Souza, jovem de 25 anos, único brasileiro presente na lista Greenbiz 30 under 30, que reconhece jovens e promissores líderes que atuam em sustentabilidade nas mais diversas áreas. Ele é engenheiro agrônomo e CEO da Onisafra, vice-presidente do conselho da Associação do Polo digital de Manaus e membro da rede Global Shapers Manaus vinculada ao Fórum Econômico Mundial. No ano de 2019 foi palestrante do HackTown e, agora, trás na sua fala uma nova perspectiva sobre a Amazônia.

Você pode contar pra gente um pouco da sua origem? Como é o lugar que você nasceu e onde seus pais moram?
Eu nasci em Manicoré no Rio Madeira, mas fui criado em Borba, um município um pouquinho mais abaixo, com 30 mil habitantes, contando com as pessoas que moram nas comunidades. Minha mãe é de Lábrea e meu avó era regatão, vivia em barcos comprando produtos na cidade para levar para o interior. Já meu pai é goiano, mas já vive aqui no Amazonas há muitos anos. Borba fica há seis horas de lancha ou 12 horas de barco de Manaus.

O que fez você sair de Borba e ir para o mundo? Quando te deu o estalo de que você tinha que sair?

Eu estudei em escola pública e sonhava em ir pra capital estudar. A educação sempre foi um valor importante na minha casa, apesar dos meus pais não serem pessoas com formação. Eles sempre me incentivaram muito à dedicação aos estudos. Meu pai se formou no ensino médio com quarenta e poucos e anos, e quando eu vi isso tive um estalo de que tinha que investir na minha. Fiz a prova do colégio agrícola em Manaus com 14 anos, passei e me mudei para capital. Aí fui conhecendo as coisas, ampliando meu olhar e gostando disso. Fui me engajando nos movimentos empreendedores, me aproximando das áreas de tecnologia, inovação. E não parei mais.

Você tem começado a falar um pouco sobre a identidade amazônida, mostrando que é preciso ampliar o olhar para as pessoas que vivem em Manaus porque, no geral, pensam que quem vive na floresta ou próximo dela é índio. Sei que essa é uma ideia sua, que ainda não colocou muito para o mundo, mas conte mais do que é essa identidade.

Então, em relação a essa questão da identidade amazônida, isso é uma coisa nova pra mim também. Quando comecei a viajar para os eventos fora do Amazonas percebi que havia uma distorção pelas piadas e perguntas que as pessoas me faziam. Elas se interessavam muito em saber mais sobre como era a minha vida, meu comportamento, como era a vida onde eu morava, de um jeito diferente de como olhavam para outras regiões. De alguma forma, as pessoas estranhavam eu não ser indígena. E aí, foi me dando uma inquietação em relação a isso.

Aqui no meu estado, mais de cinquenta por cento das pessoas não se consideram nem brancas, nem pretas, nem indígenas: são pardos. Mas quais são as características dos pardos? Quais as raízes, os hábitos? Um povo que não tem uma identidade formada, no meu ponto de vista, não vai conseguir se colocar com força social e reivindicar seus interesses, seu lugar ao sol ao lado dos demais.

Ao mesmo tempo, comecei a observar o movimento das pessoas pretas, perceber como existe um fio condutor na narrativa deles, uma estrutura. E fui ligando os pontos, conversando com as pessoas e comecei a entender que tem um trabalho a ser feito no aprimoramento do debate. Isso vai fazer com que as pessoas olhem para nossa região e pensem em políticas para além dos indígenas e passem a entender que a Amazônia é mais do que isso.

Você já falou um pouco, mas queria aprofundar mais. Na sua perspectiva qual a importância de ampliar o olhar para essas diferenças entre índios e amazônidas? E os caboclos?

Na verdade, o termo caboclo infelizmente é pejorativo. Ele diz respeito a crianças nascidas da relação entre índios e brancos numa época cheia de pré-conceitos. É preciso ressignificar para que as pessoas não sintam necessidade de negar as sua raízes. É importante entender como chegamos até aqui, a história, mas valorizar a ancestralidade, sentir orgulho. Não é sobre separar índios de caboclos, cindir, é criar uma perspectiva ampliada. A região Norte precisa de um desenvolvimento que favoreça seu povo. Somos um povo caboclo, seja de terra firme ou ribeirinho, seja indígena ou urbano. Precisamos de uma melhoria coletiva pois estamos todos habitando a mesma terra. Precisamos de políticas públicas mais assertivas.

Você trabalha para valorizar o produto e o produtor típico do Amazonas. Pode contar um pouco mais?

Hoje eu estou a frente da Onisafra, que é uma plataforma digital para a criação de feiras online. Ela nasceu com o propósito ajudar as cadeias produtivas de fornecimento de alimentos, sejam hortifrútis, produtos de origem animal ou produtos da diversidade, a irem mais longe.

A gente atua tanto com agricultores, quanto com extrativistas, e também com empreendimentos urbanos. A ideia é digitalizar e ampliar o acesso aos produtos.

Atualmente, temos várias abordagens. Uma delas está relacionada aos produtos regionais, originários aqui da Amazônia. A gente pega as cadeias produtivas que são um pouco desorganizadas, e a ideia é que consigamos ajudar a arrumar. Desenvolvemos uma plataforma que facilita a comercialização desses produtos nativos não só para consumidor final como também para empreendedores que os utilizam como matéria-prima como cacau, tucupi, farinha de tapioca, que é muito utilizada no açaí, poupas de buriti, cupuaçu. Há também produtos utilizados na alta gastronomia como cumaru, por exemplo. A gente facilita a comercialização e acaba criando redes de fornecedores facilitando a difusão dos sabores da Amazônia.

Como é o ecossistema de inovação da região? O que ele tem de particular em relação ao resto do país?

O ecossistema aqui da região Norte, como um todo, é ainda incipiente. Ele vem sendo desenvolvido. Já existem várias empresas se estabelecendo no mercado, várias startups, mas tudo meio começando. Em Manaus, especificamente, existe um diferencial em relação ao restante do país por conta dos recursos advindos da Lei da Informática, que foi instituída por conta do polo industrial para incentivar a pesquisa e desenvolvimento da inovação na nossa região. No entanto, existem algumas problemáticas, já que a aplicação desses recursos fica muito restrita a Manaus. Perdemos, por exemplo, um olhar mais amplo e diverso frente às possibilidades que temos. Ao mesmo tempo, temos muitos institutos de pesquisa, altamente tecnológicos, desenvolvendo soluções para várias empresas do mundo.

Estamos crescendo. Nesse momento enxergo que começa a surgir o entendimento de que precisamos de uma governança que captaneie a pulverização dos recursos de uma outra forma. Mas já temos atores e talentos com visibilidade e impacto nacional o que atrai os olhares pra cá e ajuda no desenvolvimento. 

Você fala muito sobre a importância do brasileiro conhecer os produtos brasileiros. Quais são esses produtos que deveriam ser comuns nas mesas pelo país e como você acha que seria possível trazê-los para esse lugar?

Eu tenho esse papo com muitas pessoas do setor de alimentos. Eu acredito que a melhor maneira de popularizar é deixá-los disponíveis e tê-los nos cardápios de restaurantes, não só nos estrelados, mas nos populares também. É importante profissionalizar as cadeias produtivas, para que as sazonalidades não impactem tanto o fornecimento e o consumidor da ponta possa acessá-las com facilidade. É fundamental que as pessoas conheçam os sabores e as possibilidades de preparo dos produtos tipicamente brasileiros. Assim, entrarão no código mental delas e no universo dos desejos também. 

Por que você acha que o brasileiro conhece tão pouco a Amazônia e o amazônida?

Eu acho que está muito relacionado ao que a gente consome e ao que é produzido de conteúdo em relação a região. As visões são muito generalistas ou parciais. Além disso, o brasileiro lê muito pouco, se informa pouco sobre o próprio país. Falta também que o amazonense coloque mais conteúdo no mundo. Afinal, a realidade daqui é muito diferente da dos acreanos, rondonienses, mas que para o resto do país são iguais. E não são! Os jovens, principalmente os nascidos aqui, precisam produzir mais conteúdo, se mostrarem mais, por isso oportunidades como essa são bem significativas, na minha perspectiva. Quando a gente tem voz e é ouvido, pode mudar muita coisa.

Como uma marca pode se alinhar mais a “real”cultura da Amazônia e ajudar de fato a transformar a região?

Essa é uma questão muito interessante. Eu entendo que muita gente usa do discurso da “cultura amazônida” mas não está alinhado com ele, nem conhece direito a realidade da gente. Se colocam como aliados, mas sob a perspectiva do impacto, fazem muito pouco para as pessoas daqui frente ao que ganham usando o discurso da sustentabilidade.

Para mim, não faz sentido uma empresa vir aqui hoje e comprar um lote de produto para utilizar nos próximos dez anos. Ela vai impactar a região agora, mas vai ficar se colocando como sustentável e amiga da floresta até sei lá quando. Isso não faz sentido! Eu acredito que o alinhamento precisa ser real. Para isso, é fundamental que as empresas verdadeiramente se disponham a conhecer o contexto das pessoas que vivem aqui e se movimentem para ajudá-las a ter autonomia de decisão. 

A gente não precisa de proteção, a gente não precisa que as pessoas nos digam o que temos que fazer. A gente precisa dos recursos necessários pra criar o ambiente certo para o desenvolvimento da nossa região. É junto, e não de forma impositiva.

Camila Andrade

Curadora e social media designer do HackTown / Founder e Designer de Informação no Studio Quindim / Consultora

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4 Comentarios

  1. HAROLDO BEZERRA CARDOSO

    27 de junho de 2020 at 10:29

    Gostei da entrevista e da postura do Macauly. Ele foi meu colega junto com o pai dele em um curso Técnico em Agronegócio. O Mestre Macauly é bom no que está fazendo. PARABÉNS PELA MATÉRIA

    Responder
  2. HAROLDO Cardoso

    27 de junho de 2020 at 10:38

    Gostei da entrevista e da postura do Macauly. Fui seu colega juntamente com o seu pai em um curso de Técnico em Agronegócio. Parabéns pela entrevista e divulgação do trabalho do Mestre Macauly.

    Responder
  3. Joelma Alves Nogueira

    27 de junho de 2020 at 11:52

    Acabei de ler a materia, e foi muito bem dirigida o roteiro.
    Apresentou uma breve e suficiente informação do entrevistado, como também abordou temas que vivemos no dia a dia e sem percebermos, e é exatamente a dentidade que outras regiões criaram a nosso respeito. (Amazônia=indio).
    Sobre a iniciativa e trabalho do entrevistado, realmente é inovadora plataforma, um suporte para os
    Produtores e demais.
    Mais o foco mais definido disso tudo, realmente é como a juventude tem um Potencial exorbitante pra Inovar , descobrir e mudar tudo em volta a economia, a educação, a politica que é nosso Caos social, e por fim a.sociedade.
    Jovens precisam se mover para mudar o mundo, começando pelo seu “A mente”.
    Parabéns Macauly por ser a mudança no seu próprio mundo.

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  4. JIMISON DA MATA MACHADO

    27 de junho de 2020 at 18:30

    Gostei muito de ter tido a oportunidade de acesso à abordagem que se fez a respeito dessa perspectiva de como mudar para melhor essa dinâmica nascida no campo do empreendedorismo sob visão do jovem Macaulay no setor primário aliando a tecnologia para o melhor acesso.

    Responder

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