HackTalks 2020

“Uma cidade de pequeno porte pode ser profundamente criativa”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 10min de leitura

Em entrevista exclusiva ao HackTalks, Ana Carla Fonseca*, profissional de atuação mundial em Cidades Criativas e Economia Criativa, traz um olhar bem interessante sobre o tema.

Em 2002, o economista e pesquisador Richard Florida publicou o livro “A ascensão da classe criativa” e deu força ao debate sobre a importância da força de trabalho criativa para o desenvolvimento econômico urbano. A constatação de Florida é que uma região com maior concentração de profissionais criativos possui melhor desempenho econômico, já que, em tese, costumam empreender, criar, atuar em negócios inovadores, produzir e, até mesmo, atrair novos investimentos e atividades para o local. Na sua opinião, como reter e atrair talentos criativos para as cidades do Brasil, principalmente as fora do eixo Rio-São Paulo, ou de menor porte espalhadas pelo Brasil?

Começando pelo Richard Florida, que conheci em Detroit e já li bastante, ele trabalha com indicadores muito peculiares aos Estados Unidos. Em eixos como talentos, tecnologia, tolerância e define indicadores como, por exemplo, o número de PhDs por mil habitantes, é um recorte muito próprio.

Não se trata de uma crítica ao Florida, mas acho que a categorização deva ser válida a todos os contextos. É sempre muito difícil estabelecer índices e conjuntos de indicadores que sejam adequados às mais diferentes realidades. Não apenas por termos disparidades em desafios de desenvolvimento e momentos diferentes dentro desses desafios, mas também por uma questão claramente cultural. Se entendermos talento criativo não necessariamente como alguém que traz inovações disruptivas, mas como alguém que gera valor agregado e faz a diferença, concordo com o Florida que esse talento precisa de um ambiente criativo.

Já o que retém e atrai esses talentos é mais do que os parques tecnológicos, muitas vezes, oferecem, vai além de infraestrutura, linhas de financiamento, capacitação, ambiente de negócios. Complementarmente ao pacote de coisas voltadas especificamente ao trabalho, há uma preocupação indissociável com o ambiente no qual esses talentos vivem, no qual se sintam instigados, com acesso a diversidade, no qual percebam possibilidades de acesso ao que é diferente. Muitos parques tecnológicos não conseguem se concretizar justamente por não dialogarem com ambiente urbano diversificado, para além do trabalho.

Eu acho que a dificuldade da cidade de menor porte, de até, digamos, 50 mil habitantes, é justamente a de congregar pessoas que formem um ambiente oxigenado. Um talento criativo tende a valorizar cada vez mais qualidade de vida, encontrar um balanço diferente do que os que que se matavam de trabalhar para comprar itens e economizar até aposentar. Isso não faz mais sentido. Os talentos criativos curtem o que fazem. Eles não sonham com se matarem de trabalhar até os cinquenta, para depois não fazerem nada, inclusive porque lhes é difícil separar o trabalho da vida pessoal.

 Que cidades vêm se destacando nesse sentido?

Berlim é um exemplo interessante. Depois da queda do muro, artistas e pessoas que queriam fazer a diferença começaram a migrar em uma proporção impressionante para a cidade. Não só porque os imóveis eram baratos, não só por estarem no centro da Europa, com toda a sua diversidade enorme. O que essas pessoas também percebiam é que lá as coisas estavam por fazer. Eu acho que esse sentimento de fazer a diferença é compartilhado por muitos talentos criativos. No caso de Berlim, tudo estava por ser reinventado. 

Acho que isso é uma tônica: onde é que eu encontro outras pessoas que também querem fazer a diferença, mas em um ambiente urbano, como é o caso de Berlim, como acho que é o caso de Santa Rita do Sapucaí (cidade no sul de Minas Gerais onde acontece o HackTown), como é o caso de Florianópolis, como é o caso muitas vezes em São Paulo – pensando em um recorte de São Paulo, voltado a isso, já que São Paulo acaba sendo muitas cidades em uma só.

Além desses exemplos, há várias outras tentativas no Brasil de promoção desse estilo de vida, no qual os talentos podem se desenvolver e que oferecem também uma qualidade de vida maior. O Porto Digital, em Recife, é uma iniciativa muito bem-sucedida para uma região periférica dentro de um país periférico como o Brasil. Na mesma linha, o Armazém da Criatividade, em Caruaru, no interior de Pernambuco, é bem interessante. Nesses casos, o desafio está ligado a escalar.  

Quando Richard Florida fala, por exemplo, de tantos PhDs por mil habitantes, é claro que você acaba tirando, via de regra, a possibilidade de cidades de menor porte serem classificadas como “criativas”. Santa Rita do Sapucaí é uma exceção por toda sua configuração histórica, desde a sua visionária precursora, Sinhá Moreira, até, efetivamente, o que Santa Rita é hoje. É difícil você ter uma cidade de menor porte com tantos profissionais de formação tão sólida. Então, via de regra, você tem que trabalhar indicadores diferentes, que devem variar conforme os desafios da cidade, porque uma cidade de pequeno porte pode ser profundamente criativa.

Qual é o conceito de Cidade Criativa? E quais são, na sua opinião, os requisitos que uma cidade precisa preencher para ser classificada assim?

Cidade Criativa não é um conceito homogêneo no mundo. O conceito do Charles Landry é bem diferente do conceito do Richard Florida, e eu sou mais simpática ao conceito do Landry, por ser mais abrangente, mais processual, por ter diretrizes indicadoras e não necessariamente indicadores fechados em si. 

Nessa linha, desenvolvemos há mais de 10 anos um projeto pioneiro, pela Garimpo de Soluções, em parceria com um colega dos Estados Unidos, o Peter Kageyama, da Creative Cities Productions. Estávamos palestrando em Ruanda e começamos a discutir a miríade conceitos de cidades criativas em curso, significando coisas diferentes, uma torre de babel. A partir disso, resolvemos desenvolver um estudo com dezoito colegas de treze países e com experiências bem diferentes. Era desde um Jaime Lerner, até alguém de Taiwan conversando com alguém da França e outro dos Estados Unidos. Ou seja, cidades muito diferentes do ponto de vista de configuração, de desenvolvimento histórico, de escala populacional, de momento, de desenvolvimento. O final dessa comparação acabou resultando em um livro digital chamado “Cidades Criativas – Perspectivas”, que editamos em inglês e depois em português. Percebemos que cada visão, por mais diferente que fosse das outras, trazia três eixos diretores básicos: inovação, conexões e cultura.

Esses três pilares, a meu ver, caracterizam uma cidade que se reinventa continuamente, a partir da inovação. É o que vejo muito no que vocês fazem em Santa Rita do Sapucaí. Já conexão não é só entre a sociedade, o poder público, a sociedade civil e a academia, mas também entre áreas da cidade, no caso de uma cidade de maior porte, como é São Paulo, que são tantas cidades em uma só. Como é que essas cidades se conectam? Como conectar toda essa diversidade? No caso de uma cidade menor, como as cidades vizinhas dialogam? A gente vê muito essa questão em regiões metropolitanas, nas quais não raro uma cidade central acaba absorvendo os talentos das demais.

Estes dias, demos uma palestra live para La Estrella, na região metropolitana de Medellín. A cidade tem 61 mil habitantes e quer se transformar, firmar sua diversidade e ser uma alternativa às pessoas não terem que ir a Medellín – isso feito a partir de um olhar próprio, o que eu acho muito bem-vindo. A cidade de Medellín, aliás, é um exemplo de cidade criativa. Outro ponto importante é a conexão entre a história da cidade e a ambição de futuro. Muitas vezes a gente olha pra frente sem pensar em de onde veio. Acho isso um erro enorme.

Um eixo diretor também muito importante é o da cultura. É o que traz a vibe da cidade, o pique da cidade, as possibilidades da cidade de se oxigenar e envolve mais do que as artes. Qual é a essência da cidade, a alma da cidade? Isso é o que os Romanos antigos chamavam de Genius Loci, ou o espírito da cidade. E isso faz uma diferença enorme para os talentos ficarem ou não.

Enfim, inovação, conexões e cultura são as três características que vejo como suficientemente diretoras, mas ao mesmo tempo não são camisas de força para terem que ser revistas o tempo todo. São conceitos maiores que se encaixam a modelos diferentes. São processuais, mais do que ligados a momentos ou a recortes específicos. Eles se encaixam tanto a Santa Rita do Sapucaí quanto à também pequena Frutillar, no sul do Chile, quanto aos desafios de São Paulo, Florianópolis, Medellín ou Londres. 

Existem alguns programas que classificam cidades como criativas, como o da Unesco, entre outros. Como você avalia estes programas existentes? Eles realmente retratam esses eixos?

Na Garimpo de Soluções já fomos de comitês de candidaturas à Rede de Cidade Criativas da Unesco. Não de cidades brasileiras, curiosamente, mas de outros países. Para falar de cidades pequenas, fui do comitê de candidatura da menor delas: uma portuguesa chamada Idanha-a-Nova. A cidade se chama assim porque já houve uma Idanha-a-Velha, que deixou de existir e a Nova estava na mesma trilha já teve seus 10 mil habitantes, talvez 12, e que estava diminuindo para cinco, três. Era uma típica aldeia portuguesa de senhoras vestidas de negro, cada vez mais sem jovens, que migravam mesmo sem querer. Essa é a antítese do desenvolvimento, entendido como ampliação da liberdade de escolhas, no conceito de Amartya Sen. Não poder morar na cidade onde nasceu é o contrário do desenvolvimento.

Para essa candidatura foi formado um comitê de pessoas que tinham olhares diferentes entre si, já que a ideia era ler a cidade com um olhar um pouco mais amplo, para se valer da chancela da Unesco, não para vender uma ideia e, sim, para validar algo em curso. Defendemos a candidatura em cima da proposta de criar algo a partir do que a cidade tinha como ambiente e que, justamente, permitisse que os talentos voltassem a Idanha-a-Nova, em especial aqueles que tinham alguma forma de vínculo. O caminho encontrado foi o da música, já que realmente há uma concentração de musicistas, de conservatórios e de tradições de instrumentos, sem porém que tivesse sido suficiente para manter as pessoas por lá. A vertente dentro da Rede de Criativa da Unesco foi, então, a da música, embora o processo envolvesse muito de bem-estar e recuperação econômica.

A crítica que eu faço à Rede de Cidades Criativas da Unesco é que vemos muitas cidades entrando sem que necessariamente tenham a ver com aquilo que é proposto. Por outro lado, cidades que se candidataram de forma mais robusta, como foi o caso de Belo Horizonte, em Gastronomia e não foram aceitas. BH passou na segunda candidatura. 

Há mais de dez anos criamos, em parceria com o Ricardo Mucci, da Umana Comunicação, desenvolvemos o projeto Criaticidades – Rede de Cidades Criativas do Brasil, com enfoque em cidades pequenas, que, a meu ver, são muito criativas, e poderiam ser ainda mais, se fossem reconhecidas como tal. Chegamos a criar um portal para que as pequenas cidades criativas pudessem postar seus inputs com esse corte de inovação, de conexão e de cultura, entre outras ações. Infelizmente, o projeto foi descontinuado. Mas é uma ideia. Temos um carinho eterno pela ideia de fazermos uma Rede de Cidade Criativas do Brasil. 

Como a crise do COVID impactou não só a vida nessas cidades, mas também o conceito de Cidade Criativa e as formas de desenvolvimento nesse sentido?

Em relação aos três grandes eixos, inovações, conexões e cultura, creio que não impactou. Continua sendo válido. O que sofre muito é a questão das conexões, por motivos óbvios. A gente consegue fazer as conexões pelos meios digitais, mas é diferente de ir pra rua. Vejo o espaço público como a seiva vital das cidades criativas, que percorre seus membros, fazendo como a seiva das árvores ou as veias do nosso corpo. O espaço público é para onde flui essa energia vital.

Uma pergunta que ouço bastante, e que seria legal esclarecer por aqui: o que diferencia cidades inteligentes de cidades criativas? E como esses conceitos se relacionam?

O conceito de Cidade Inteligente, da forma como foi cunhado, ou pelo menos como foi decodificado em seu momento, é uma marca da IBM. Isso gera uma série de ruídos. Agora, se for dentro da lógica que a Rede Brasileira de Cidades Inteligentes, Humanas, Inovadoras, Criativas e Sustentáveis, que o André Gomyde formou, vejo a cidade inteligente como aquela cidade em que as tecnologias se conectam e conversam entre si, para gerar soluções com as quais as pessoas possam ser mais inteligentes, valorizadas e com possibilidades. 

Pra finalizar, outro conceito muito falado no contexto de cidades é o de City Branding. O que é? Para o que serve? E qual exemplo vale a pena conhecer?

Um capítulo da minha tese de doutorado, que foi a primeira do Brasil em Cidades Criativas, trata justamente da distinção entre City Branding e Cidade Criativa, para ter certeza de que as pessoas não confundiriam as coisas. O City Branding é muitas vezes desvirtuado para uma jogada de comunicação, uma autotitulação de cidade criativa, inteligente ou o que for, por uma cidade que não se caracteriza por isso, como um envelope que não condiz com o conteúdo. E aí há um problema muito grande.

Aliás, parte da crítica que comentei sobre a Rede Cidades Criativas da Unesco diz respeito a isso. Há cidades que veem o selo como City Branding, de fora pra dentro, e não necessariamente algo que vem de dentro pra fora. Acho um tiro no pé. No fim das contas, se o turista ou o cidadão não se identifica com aquilo, de nada adianta. É um problema que vai na direção oposta a tudo que estamos falando aqui.

* Ana Carla Fonseca é Administradora Pública (FGV); Economista, Mestre em Administração e Doutora em Urbanismo (USP). Liderou projetos de inovação em multinacionais por 15 anos, na América Latina, em Londres e Milão. É diretora da Garimpo de Soluções, empresa pioneira na atuação em economia criativa, cultura, cidades e o futuro do trabalho, consultora e conferencista em cinco línguas, 224 cidades e 32 países, para a ONU e o BID. Escreveu vários livros pioneiros, tendo sido agraciada com o Prêmio Jabuti em Economia e finalista em Urbanismo. Venceu o Prêmio Claudia 2013, em Negócios e foi apontada pelo El País como uma das oito personalidades brasileiras que impressionam o mundo.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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2 Comentarios

  1. José Gerson de Sousa filho

    26 de junho de 2020 at 14:54

    Bastantememte interessante e uma alternativa as cidades de porte médio que possui um grande capital humano e assisti a fuga dessas pessoas para outros centros. Como faz para propor parcerias com OS e se há alguma agência de fomento ou outras instituições financiando projetos.Abraco!

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  2. Gustavo Santos

    26 de junho de 2020 at 23:25

    Muito interessante!
    Alguma dica para que os próprios moradores de cidades pequenas possam se organizar para construir um caminho de cidade criativa?

    Responder

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