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HackTalks 2020

“Acho que toda cidade, independente do tamanho, vai esbarrar nesse tipo de conflito em algum momento no futuro”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 5min de leitura

Conversamos com Fabrício Teixeira, designer na Work & Co, sobre como o design pode ajudar a melhorar a experiência e a qualidade de vida nas cidades. Confira.


Conte-nos um pouco sobre sua trajetória profissional e sobre o seu trabalho atual.

Trabalho com design há 15 anos, sempre do lado das agências e consultorias. Inicialmente com design digital em publicidade, e logo na sequência com design de produtos digitais — os últimos 10 anos nos EUA.

Hoje atuo como designer na Work & Co, no Brooklyn, onde criamos produtos digitais para algumas das maiores marcas do mundo.

Quais são os projetos que você trabalhou recentemente que você mais se orgulha? Conte-nos um pouco sobre eles.

Sem entrar em específicos, mas nos últimos anos tenho trabalhado com projetos para o Google, Equinox e Mailchimp, sempre focados em produtos digitais e operando como uma extensão do time deles.

É muito gratificante poder desenhar produtos que serão experienciados por milhões de pessoas ao redor do mundo — e acho que a parte mais interessante disso é a responsabilidade que esse alcance todo traz.

Todos os trabalhos que temos feito envolvem design centrado no usuário, ou seja: muita pesquisa, testes de usabilidade, e conversas com os usuários finais do produto para garantir que o que estamos criando consiga atender às suas necessidades e entregar valor tanto para o usuário quanto para a marca.

Você e o Caio Braga tem um blog bem interessante, referência em UX no mundo todo, o UX Collective. Em uma publicação de 2018, você comenta sobre alguns assuntos que preferiria falar a respeito “ao invés de falar sobre ferramentas de Design”. Um desses assuntos é sobre o Design aplicado a cidades, tema que muito nos interessa aqui no HackTalks. Você pontuou: “Será que, enquanto sociedade, deveríamos estar aplicando nossos aprendizados de Design Digital e como ele afeta o comportamento humano à forma como desenhamos nossos espaços públicos?” Deixo a pergunta aqui: Como o Design pode ajudar na forma como desenhamos nossos espaços públicos?

Mesmo tendo focado minha carreira em design de produtos digitais, é inevitável pensar na relação entre os espaços virtuais e os espaços físicos (como os espaços públicos das cidades, por exemplo). No fim, muitos dos princípios de design têm a mesma origem.

Não importa se você está projetando uma experiência física (e.g. o espaço de um parque) ou uma experiência digital (e.g. um aplicativo de celular), seu objetivo como designer é permitir que o usuário navegue aquele espaço com facilidade, conforto, e que consiga utilizar esse espaço para atender alguma necessidade que tenha — seja pagar uma conta bancária, agendar uma mesa em um restaurante, socializar com amigos e familiares, ou simplesmente se divertir.

Uma das coisas que tenho bastante interesse é entender como as últimas décadas em que o mundo passou a projetar experiências digitais pode afetar a forma como as experiências e espaços públicos são reimaginados para o futuro.

Além da questão dos espaços públicos, você vê outras formas como o Design e o UX podem ajudar a tornar as cidades mais agradáveis de se viver e aumentar a qualidade de vida dos cidadãos?

Uma das coisas que o design de produtos digitais trouxe bastante à tona foi a ideia de colocar o usuário no centro do processo de projetar experiências (o tal do UX Design), sem deixar de lado o impacto que determinado produto digital pode ter em grupos de indivíduos, em comunidades, e na sociedade como um todo — e parte desse process envolve desenvolver empatia pelos usuários. Quando esse processo começa a ser transportado para o design de espaços físicos, tenho fé que veremos espaços públicos que também são pensados com essas prioridades em mente.

Quando você começa pela necessidade do usuário ao invés da necessidade do espaço em si, você chega em soluções muito mais inteligentes e sustentáveis. Ao invés de assumir que as avenidas precisam ser desenhadas com 6 faixas de veículos para poder desafogar o trânsito, podemos começar a questionar se carros são a melhor solução para ajudar o usuário a atingir seu objetivo original de (1) se transportar até o seu local de trabalho ou ainda (2) de conseguir trabalhar para uma empresa sem precisar se deslocar até o escritório. 

Já que o assunto é cidades, o que mais te atrai na cidade em que vive? Por que da escolha? E o que te segura por ai?

Uma das várias coisas que me atraem em Nova York (a cidade em que vivo hoje) é a ideia de que ela é um espaço perfeito para testar essas novas soluções. A densidade populacional, a altura dos prédios, e o potencial impacto negativo que isso pode ter no ambiente faz da cidade um laboratório perfeito para explorar soluções de design / arquitetura / tecnologia que informarão outras cidades do mundo por décadas no futuro.

Tirando isso, algo que me encanta na cidade é seu pragmatismo: quem está aqui, está aqui por um objetivo maior (ninguém muda para NY para ter necessariamente uma vida confortável e pacata). Isso impacta de tudo um pouco: as relações interpessoais, as relações comerciais, o tipo de movimentos culturais que vemos aqui, e o design dos espaços físicos, obviamente.

Pra finalizar, o que, na sua opinião, as cidades do Brasil, principalmente as de menor porte que querem se tornar hubs de talentos criativos e startups podem aprender com Nova York, ou mais precisamente com o Brooklyn, onde você vive? E como você vê o Design auxiliando nesse sentido?

Uma das coisas que aprecio muito no Brooklyn é essa sensação de comunidade local, sem perder o foco da história maior que é New York City. Hoje tenho tudo o que preciso a poucos quarteirões de distância, e são raras as ocasiões em que preciso me deslocar até o outro lado da cidade em uma semana normal.

O Brooklyn é um bairro com muita história, muito legado, e uma diversidade cultural incrível. Conseguir preservar esse senso de pertencimento a uma cultura local sem necessariamente negar o progresso, a tecnologia, e as mudanças macro da sociedade é um desafio imenso para gestores públicos.

Acho que toda cidade, independente do tamanho, vai esbarrar nesse tipo de conflito em algum momento no futuro. Além disso, penso que os efeitos da pandemia global que vivemos hoje (2020) afetarão drasticamente as noções que temos hoje de distâncias geográficas, trânsito, e formas mais eficientes de criar esses pólos comunitários onde as pessoas não precisem se deslocar grandes distâncias.

A principal estratégia será conseguir manter esse chapéu questionador do designer, de nunca cair direto em uma solução, mas sim de primeiro entender o real problema que precisa ser resolvido. Perguntar “por que” é a mais poderosa ferramenta de design.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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1 Comentario

  1. Paulo Tadeu

    12 de setembro de 2020 at 15:20

    Excelente entrevista! Pensar a cidade pós pandemia é hoje um dos maiores, senão o maior desafio para quem pesquisa, estuda, planeja e, principalmente para os que estão na ponta executiva da gestão urbana (aqui incluo, tanto os que têm funções técnicas, quantos os investidos de mandatos políticos, como prefeitos e vereadores). Não é de hoje que se fala: vivemos tempos de mudanças e de
    grandes transformações, sejam elas tecnológicas, comportamentais, ambientais ou mesmo econômicas e, durante todo este tempo, estamos empurrando com a barriga o enfrentamento destes desafios. Com a pandemia, ao contrário do que é dito diuturnamente, não paramos, ou interrompemos este processo, mas, sim, o intensificamos ainda mais. E, “quando tudo passar”, certamente não voltaremos ao ponto que estávamos quando tudo começou, como muitos supõem. Exemplos que confirmam essa aceleração não faltam. Vou citar dois apenas. No varejo, quem não tinha vendas pela internet, hoje tem que ter; no setor gastronômico, quem não tinha delivery, hoje tem que ter. Mas, certamente, dentre tantas mudanças, uma das mais impactantes é a que acontecendo com os empregos, com a chegada forte do “home office”. Este novo formato de trabalhar tem impacto gigantesco nas cidades. Ao reduzir deslocamentos, ele altera profundamente a lógica da mobilidade urbana, sem perder de vista que impacta drasticamente os preços e o dimensionamento dos imóveis comerciais. Tudo isso deságua nas cidades que, na maioria dos casos e, a duras penas, terão que se adaptarem a este turbilhão de mudanças, com um detalhe, não podemos “fechá-las para reforma” e depois reabri-las. Teremos, pois, que abastecer o avião voando. Diante destas rápidas considerações, ao ler este texto, chamou minha atenção o seguinte trecho: “O Brooklyn é um bairro com muita história, muito legado, e uma diversidade cultural incrível. Conseguir preservar esse senso de pertencimento a uma cultura local sem necessariamente negar o progresso, a tecnologia, e as mudanças macro da sociedade é um desafio imenso para gestores públicos.” Sem, dúvida, descobrir como conciliar o sentimento de pertencimento e de preservação do “espírito do lugar”, com as transformações sociais, tecnológicas e comportamentais, será, certamente, o fio condutor desta meada a ser desembaraçada.

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