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HackTalks 2020

“As startups mais inovadoras são aquelas que entenderam de fato o problema”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 10min de leitura

Conversamos com Martin Restrepo e Claus Blau, da Hyper Island, sobre problemas complexos e como lidar com eles. Vale a leitura.


Oi Martin e Claus. Conte-nos um pouco sobre vocês!

Claus: Fui executivo durante alguns anos, primeiro na área de RH e depois em uma consultoria internacional, sempre dedicado ao desenvolvimento das pessoas, das organizações e suas culturas. Nos últimos quatro anos na Hyper Island, uma escola sueca de inovação, temos trabalhado em processos que me fascinam profundamente, que são os processos de transformação de modelo mental.

Martin: Sou colombiano, moro no Brasil há 12 anos e, embora tenha estudado sistemas eletrônicos, me sinto mais um designer, um antropólogo. Trabalho com inovação e empreendedorismo há 15 anos. Muito jovem, ajudei a criar o primeiro parque tecnológico do meu país e quando me mudei para o Brasil, criei uma empresa de tecnologia educacional e social, junto da minha sócia e parceira de vida. Trabalhamos com empresas, universidades e escolas, com agricultores, pescadores, professores, jovens e isso me levou a apreender sobre muitos contextos, muitos universos. Nos últimos quatro anos, integro a equipe de Hyper Island nas Américas, aplicando a inovação e ativando a inteligência coletiva com dezenas de organizações e pessoas.

Por que vocês decidiram se aprofundar nos Problemas Complexos, conhecidos como Wicked Problems certo? Qual a importância do tema?

Claus: Fui membro de um Grupo de Estudos de Complexidade, do Prof. Humberto Mariotti, por 15 anos e isto mudou a minha forma de ver o mundo. “Complexus” em latim significa “aquilo que é tecido em conjunto”. Em um mundo cada vez mais interdependente e em aceleradas transformações como o nosso, nada melhor do que trabalhar os problemas por esta perspectiva não é?

Martin: Ainda como estudante queria ser nanotecnólogo, tentando entender como a natureza pode fazer a vida com 2 regras muito simples, autoensamblado e autoreplicação, e como podemos construir sistemas de baixo para cima. Acredito que em escala humana deveríamos fazer o mesmo, aprender a conectarnos com outros, e aprender multiplicar com outros, vejo na complexidade uma grande oportunidade de olhar o todo e encarar os profundos problemas que temos como sociedade, começando pela gente mesmo.

O que são um Problemas Complexos? O que caracteriza um problema dessa natureza?

Claus: A resposta mais óbvia é que são problemas sem soluções simples. Mas olhando mais de perto os Problemas Complexos são aqueles imbricados na interdependência do mundo (que na verdade sempre existiu e nós não enxergávamos por causa do nosso modelo mental predominante), e que a internet está nos revelando a cada dia. Eles se tornam complexos porque envolvem e estão relacionados com múltiplas variáveis, “stakeholders” e relações de causa e efeito relacionadas entre si.

Martin: Aprendemos que para resolver um problema deveríamos buscar a causa raiz, e em teoria, eliminando essa causa raiz, eliminamos o problema, concordam? Mas o mundo real é bem mais complexo, é como aquele joguinho onde você martela um boneco que sai de um buraco, e quando faz isto outro boneco sai de outro buraco, parece que você entra num ciclo infinito. Os problemas complexos podem permanecer por muito tempo, talvez para sempre… e para fazer visíveis suas relações, devemos descobrir essas interdependências que Claus menciona, pois o que você faz numa ponta tem incidência em outra.

Que exemplos práticos melhor ilustram este conceito?

Claus: Como eu disse, os Problemas Complexos podem ser vistos como aqueles imbricados na interdependência como por exemplo uma situação que exige o envolvimento de múltiplas áreas de uma organização e até de fora dela. Outros exemplos são aqueles em que não existe uma resposta ou um caminho fácil entre duas polaridades, por exemplo: entre a estabilidade ou mudança, ou entre a redução de custo ou a melhoria da qualidade, ou mesmo entre o comando & controle ou a delegação.

Martin: Pense no cotidiano da sua vida na quarentena por exemplo, e numa decisão como sair ou não pra rua, você decide que vai sair mas deve ir preparado, coloca o álcool gel no bolso, a sua máscara, verifica que não há infiltrações nela, o casaco e até um face shield para proteger os olhos. Sai pra rua, decide ir por um lado da calçada, interpreta por aí poderá encontrar menos pessoas, mas vem uma família em sentido oposto e você decide mudar de lado da calçada para não cruzar com eles, um carro passando buzina (você quase foi atropelado) e você consegue passar para o outro lado, depois de 10 minutos caminhando e evitando todo contato decide voltar para sua casa, toma um banho de álcool gel que sobrou, tira toda a roupa, coloca pra lavar, e volta para se sentir seguro. Você faz tudo isto pois seu modelo mental te diz que a sequência das suas ações dependerá de não ficar infectado, nem infectar outros. Por outro lado, e com outro modelo mental, tem o cidadão que sai pra rua sem máscara, que leva a vida normal, e você se pergunta: será que a minha mentalidade diante da quarentena é a correta ou os meus cuidados são excessivos? Este é um desafio complexo.

Como este tipo de problema impacta as organizações? E como ele se relaciona com a inovação?

Claus: Somos educados desde cedo a focar na solução, no resultado, no objetivo. Nas empresas as pessoas são contratadas, até mesmo na alta liderança, para “resolver problemas”. O “problema” desta forma de pensar e de abordar problemas é que ela menospreza o processo, o “como”, e se investe muito pouco tempo em realmente se aprofundar e entender o verdadeiro problema. As startups mais inovadoras são aquelas que entenderam de fato o problema, como diz o Uri Levine, fundados do Waze: “fall in love with the problem, not the solution”.

Martin: Têm problemas nas organizações que estão presentes há décadas, que as pessoas até se acostumaram a eles, problemas que estão nos processos, na logística, na burocracia, na estrutura organizacional, na cultura, mas temos lidado com eles de uma forma linear, tentando achar uma “bala de prata”que os resolva, e a realidade é que as soluções são tão diversas e complexas quanto a origem dos problemas. Por isto, precisamos tanto tomar o maior cuidado no processo de mapeamento dos problemas como buscar pelas soluções. Não adianta fazer uma hackathon para pedir ideias na organização se não trabalhamos naquilo que vale a pena trabalhar, se não conectamos os stakeholders, se não trazemos as pessoas, a diversidade e o planeta ao centro do processo de design, e se não eliminamos muitos vieses cognitivos que nos impedem de olhar com clareza.

Como detectar um Problema Complexo? Qual o papel da inteligência coletiva nesse contexto?

Claus: A inteligência coletiva, a colaboração e a diversidade cognitiva são fundamentais para lidarmos com Problemas Complexos por um motivo muito simples: o nosso ponto de vista individual SEMPRE será enviesado e limitado. É por isto que na Hyper Island praticamente tudo o que fazemos envolve a colaboração e a co-construção.

Martin: Toda vez que você tente achar a origem do problema e esta não seja claramente identificada, toda vez que você se pergunta e não pode responder com um simples “sim” ou “não”. Complexo não significa difícil, significa multi-dimensional, e desde a inteligência coletiva ninguém sabe mais do que todo mundo junto. Atuar desde a complexidade significa construir redes, pensar de forma distribuída, quando você ativa isto consegue fazer visível o invisível, e detectar melhor os problemas complexos, também torna as pessoas donas daquilo, pois estão como Claus mencionou, apaixonadas pelo problema e não pela solução.

Como lidar com este tipo de problema?

Claus: É claro que as ferramentas nos ajudam muito, mas é fundamental desenvolvermos uma ampliação da nossa percepção, o que chamamos de mindset de complexidade. No final das contas trata-se de auto-conhecimento.

Martin: Envolva todos os stakeholders, usuários, traga a maior diversidade possível, ative suas redes, faça muitas perguntas, mapeie os pontos de vista, identifique padrões. Um sistema não é a soma dos comportamentos das suas partes, mas o produto das suas interações. Crie valor para seu ecossistema como um todo.

Como desenvolver o mindset de complexidade, ao seu ver?

Claus: O Alvin Toffler dizia que “os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não sabem ler e escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender e reaprender”. Nós gostamos de dar ênfase ao “desaprender”, porque antes de desenvolvermos um mindset de complexidade, é fundamental desaprendermos de antigas formas de pensar, desapegarmos de formas ultrapassadas de trabalhar, enfim, abandonarmos alguns paradigmas que nos limitam. Mas é importante ressaltar que o mindset de complexidade não exclui ou substitui o mindset existente; ele o amplia!

Martin: Valorizar mais as perguntas do que as respostas pode ser o primeiro passo, no mundo atual, cada vez mais complexo, quando mais consigamos questionar a forma em que produzimos, operamos, e agregamos e valor, melhor conseguimos navegar pela complexidade, quando mais ágeis possamos ser para adaptarmos aos nossos descobrimentos, e quanto mais abertos para experimentar, novos territórios, invisíveis aparecerão no olhar.

Um outro tema que acaba sendo impactado pelo mindset de complexidade é o Design Thinking. Conte-nos mais sobre isso.

Claus: O Design Thinking é uma metodologia extremamente valiosa para nos ajudar a entender os problemas. O risco que podemos correr é querer transformá-lo em um dogma ou considerá-lo como o único, ou o melhor, caminho possível.

Martin: O pensamento de complexidade convive com todo tipo de ferramentas e metodologias, ele pode ser o inîcio de um processo de descoberta promovido pelo design thinking, e pode agregar valor na empatia, com a ativação das redes e mapeamento do contexto, ajuda a definir onde vale a pena trabalhar e se enfocar.

Pra finalizar, que exemplo de solução para um Problema Complexo que vocês gostariam de destacar?

Claus: Temos trabalhado este assunto com diversas times e organizações, no contexto atual de aceleradas transformações no mercado e no mundo. E as histórias mais gratificantes são aquelas em que nós facilitamos times que constroem as suas próprias narrativas de mudança, como por exemplo o caso de uma empresa que mudou a sua estratégia porque percebeu que, se não mudasse, ela entraria em grandes dificuldades.

Martin: Eu acho que o contexto atual da pandemia global tem nos desafiado como sociedade a encarar a complexidade, a entender que nossos comportamentos impactam na vida todos, a pensar de uma forma mais sustentável e rever nosso consumo, nossa forma de nos relacionar, de trabalhar e até de sonhar o planeta que queremos construir. Se conseguimos olhar desde a complexidade, conseguiremos criar futuros desejáveis, plausíveis. Inclusive, temos um curso online, “Problemas Complexos”, da Hyper Island de 4 semanas, que é muito interessante.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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2 Comentarios

  1. Criskaari

    21 de agosto de 2020 at 13:41

    Ótima perspectiva

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  2. Lucas

    9 de setembro de 2020 at 22:38

    Artigo que faz pensar e ótimo conteúdo. Obrigado pessoal!

    Responder

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