HackTalks | Blog de Ideias e Conexões de Impacto | por HackTown
HackTalks 2020

“Nosso desafio era descobrir como chamar a atenção e ser ouvido em meio a tanta coisa boa sendo lançada”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 9min de leitura

Em um papo bem legal com Dani Rodrigues*, empresária do rapper Rashid, ela abre o jogo sobre a forma inovadora como vem trabalhando a carreira do artista, e traz dicas essenciais. Confira.

O álbum mais recente do Rashid foi um projeto muito inovador: multiplataforma, pensado como uma série, em uma trilogia-disco de 3 temporadas, acompanhado de documentário, trailers, podcast, spoilers, posteres, hotsite. Conte-nos mais sobre o projeto.

2019 foi um ano com muitos lançamentos de discos de rap, de alguns dos nomes mais relevantes do segmento. Nosso desafio era descobrir como chamar a atenção e ser ouvido em meio a tanta coisa boa sendo lançada.

O Rashid fez mais de 30 músicas para o disco e na seleção final ficamos com 18 faixas. Já tínhamos em mente que pedir mais de uma hora para o ouvinte apreciar o disco todo nos tempos atuais seria demais, já que todos temos um milhão de distrações. A partir daí veio a ideia de dividir em três EPs com seis faixas cada, mas era importante contar uma história, contextualizar isso. Estamos nessa fase de seriados, as pessoas se viciarem, ficarem empolgadas para maratonar, etc, então decidimos trabalhar o marketing como se fosse uma série.

Já estávamos registrando um documentário de bastidores e junto com a Free Birdz (Felipe Barros e Moysah), reconstruímos o roteiro para contar a história que precisávamos. A partir daí, as coisas foram ganhando vida e veio a ideia de um hotsite com a cara dos players de streaming de séries, de posters com principais personagens (participações no caso), a ideia de soltar spoilers pra gerar engajamento e curiosidade nos fãs, divulgar datas com trailers (como as séries), etc.

Foi muito legal ver as pessoas abraçando a ideia, perguntando sobre a próxima temporada e se envolvendo com a história contada nos episódios do documentário.

As decisões de marketing que vocês tomam na carreira do Rashid, além do lado artístico, é claro, parecem estar muito ligadas à forma como os jovens escutam música no dia a dia. Isso é muito desafiador, pois são comportamentos em constante transformação. Como veio a ideia do projeto ser feito dessa forma? E como vocês realizam esse tipo de estudo, como levantam esses insights?

Eu brinco que sou uma nerd do music business, então acompanho muito os diversos blogs e sites americanos sobre o assunto (uma carência nossa, inclusive), e desde de 2016 vem se falando muito sobre as pessoas não ouvirem discos inteiros, terem preferência por playlists, ou quando ouvem o disco, só o fazem pra pescar as músicas preferidas para as suas playlists pessoais. Somado ao fato de que é muito difícil segurar o público jovem por uma hora ou mais parado ouvindo e prestando atenção em um disco. Então todas as nossas estratégias partem do nosso desejo de as músicas, todas, serem realmente ouvidas, da mensagem realmente ser passada.

Desde o início vocês foram inovadores na construção da carreira do Rashid. Aliás, um ponto que acho super interessante foi o de serem um dos primeiros a focar em singles ao invés de álbuns inteiros para se adaptar à dinâmica de uso de streaming naquele momento. No entanto, em um storie do Instagram, o Rashid comentou sobre o fato de não ter lançado nenhum single deste atual projeto e que isso era uma decisão arriscada. Quais os motivos dessa decisão? E como você vê esse cenário atual dos singles?

O Funk e o Sertanejo focam em singles já faz muito tempo. O diferencial nosso foi anunciarmos a estratégia e transformarmos em um álbum depois. Tivemos um excelente resultado, crescemos mais de 500% só no spotify em um período de aproximadamente oito meses. Sem contar as demais plataformas, que na época ainda não tinham os analytics disponíveis.

O single, normalmente, é o convite para o álbum. A música tem que ser muito bem escolhida porque ela pode fazer o ouvinte decidir ouvir (ou não) o álbum que está por vir. Estávamos muito seguros da qualidade do disco, no entanto, o Rashid estava fazendo a música que ele acreditava, antes de pensar no que estava fazendo barulho no mercado naquele momento. Somando ao fato de que o álbum já estava dividido em temporadas, não fazia sentido pra nós e nossa estratégia naquele momento. 

Como vocês lidam com as redes sociais na construção da carreira do Rashid? E quais exemplos ilustram isso?

A carreira do Rashid começou em 2008,. Nós nascemos na internet. Não teria outro jeito de construir a carreira dele naquele momento. As músicas eram lançadas no myspace com divulgação por scrap no orkut. Então desde o início percebemos a importância de construir uma “comunidade” pré disposta a ouvir e interagir com o Rashid. 

Então quando pedimos para os fãs seguirem em redes sociais e interagirem com as postagens, a ideia é que seja mais fácil alcançá-los com um lançamento ou qualquer coisa que o Rashid queira compartilhar. Pra que nós e os fãs consigamos ensinar os algoritmos sobre o tipo de conteúdo que eles querem ver/ouvir e interagir.

Lá em 2012 a gente lançou a mixtape “Que Assim Seja” com uma twitcam (uma live) e o link de download da mixtape chegou a cair pela quantidade de acesso. 

É disso que estamos falando, sabe? No lançamento da primeira temporada de “Tão Real”, meia noite entramos em um chat com os fãs no hotsite, que também acabou com problemas devido à quantidade de acessos.

Recentemente o Rashid teve trabalho em conjunto com o cantor Kevinho em um projeto feito pela Axe. Como você vê essa relação entre artistas e marcas no Brasil? E como vocês vem trabalhando nessa direção?

É importante que as marcas enxerguem o valor em trabalhar com artistas, pois eles geralmente têm uma base de fãs forte e que se inspiram neles, não só visualmente, mas na vida, postura, pensamentos, etc.

Também é preciso que as agências de publicidade tenham uma visão mais ampla do mercado, pois existe uma dificuldade (que também existe internamente no mercado) em enxergar a grande quantidade de artistas no chamado midstream que poderiam dar retorno e visibilidade para as marcas. Às vezes investir em 10 artistas midstream pode dar tanto retorno ou mais do que em um único artista do mainstream, e o custo final seria praticamente o mesmo.

Além de empresária do Rashid, você é diretora da Foco na Missão Produções e Merchandising, escritório que administra a carreira do músico e sua marca de roupas. Ou seja, há um enfoque grande do negócio em merchandising e produtos. Inclusive, o projeto do livro do Rashid, creio eu, é um case bem interessante até mesmo em termos mundiais. Como vocês trabalham essa questão do merchandising? E quais os desafios, na sua opinião?

Não é fácil, devido ao tamanho do nosso negócio e por não produzirmos em grandes quantidades, os pagamentos de produção são todos a vista e depois nos viramos pra recuperar na venda, que nem sempre é rápida. Mas acho muito importante, primeiro porque é muito gratificante chegar pra tocar e ver boa parte do público usando as roupas da marca, por se identificarem com as nossas ideias e a mensagem que queremos passar. Segundo, porque a gente se coloca e se comporta como empresa, como um hub de negócios, fortalece a marca Foco na Missão e o Rashid com um todo.

O Rashid sempre leu muito e tinha o sonho de escrever um livro. Foi incrível porque vendeu muito bem. Em cinco pessoas trabalhando, demoramos um mês pra conseguir enviar todos os exemplares da pré venda. E vai contra o que as pessoas falam, né? Que a juventude não lê. Mesmo sabendo que o livro do Rashid pode ter sido o primeiro livro da vida de muitos, isso mostra que eles vão ler desde que fale de algo que seja do interesse deles e que seja financeiramente acessível.

Nossos maiores desafios estão em conseguir produzir a um valor que seja acessível para o público, mas que seja um produto de qualidade. É outro problema de produzir em pequena quantidade: quanto mais peças, menor seria o custo produção.

Com a crise do Covid e a impossibilidade de se fazer shows ao vivo, o mundo da música está bem abalado. Vieram as lives, mas no que vai além disso, são muitas tentativas e pouca efetividade. Qual foi o impacto para vocês? E como vocês tem lidado com esses desafios?

Nós investimos bastante no disco “Tão Real” e normalmente esse investimento é recuperado quando vamos pra rua fazer show. Não é segredo pra ninguém que o digital demora um pouco mais a dar lucro com a venda/streaming da música.

O crescimento do artista e alcance de novos públicos passa diretamente por estar na rua fazendo show e esse ano já tínhamos shows divulgados em dois grandes festivais: João Rock e Lollapalooza, além de outros festivais e casas de show. 

Então tivemos uma grande perda, e não estou falando só da parte financeira. 

No entanto, entendemos que o que estamos passando é maior que a gente e que a segurança de nossos fãs e do nosso time deve estar em primeiro lugar. 

Como o Rashid tem um alcance considerável, temos conseguido comercializar algumas lives e isso tem nos ajudado a manter a Foco na Missão funcionando e a nossa equipe fixa assistida financeiramente, mesmo que em proporções menores do que se estivéssemos na estrada.

No álbum mais recente do Rashid, cada temporada teve muitas participações especiais (ou feats, como o mercado tem chamado). Como esse tipo de parceria contribui com a carreira do artista? E como são feitas as escolhas?

As escolhas das parcerias, no nosso caso, parte mais pela identificação artística e desejo do Rashid de estar com esses artistas do que por razões mercadológicas. 

Mas, óbvio que muitos deles acabam trazendo pessoas que talvez não ouviriam Rashid solo e temos ali uma chance de cativar essas pessoas. 

É muito importante o artista se relacionar com artistas do seu segmento e do mercado em geral, isso amplia sua visão musical, artística e também de mercado.

Pra finalizar, que aprendizados você teve ao longo da sua carreira e acha importante compartilhar com quem está começando?

Eu aprendi que tem muito mais a aprender sempre e o trabalho nunca diminui, que existem muitas entrelinhas e você precisa buscar entender cada uma delas. Que amar sua música é importante e entender que ela é também o seu produto não diminui em nada esse amor. Repita pra si mesmo até que seja absorvido, você ama criar e para continuar criando você precisa de recursos, então é preciso aprender a colocar sua música pra trabalhar pra você.

Seja curioso/curiosa, cada vez que ver um termo que não sabe do que se trata, vá pesquisar. Troque figurinhas com outras pessoas do meio da música, acompanhe (sempre que possível) feiras e conferências, aproveite esse momento de quarentena porque vários desses conteúdos estão sendo disponibilizados gratuitamente através das lives.

Escolha mentores, se você admira alguém do meio, passe a acompanhar os conteúdos que essa pessoa compartilha, o que ela lê, o que ela acompanha, o que ela deixa disponível da forma como trabalha, etc., eu tenho vários e hoje tenho a sorte de ter alguns deles na minha agenda e poder ligar sempre que preciso de um conselho.

* Para acompanhar o trabalho de Dani Rodrigues, siga-a no Twitter, aqui, e no Instagram, aqui.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

Mais Posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Orgulhosamente Desenvolvido por Trackdev