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HackTalks 2020

“Tabus foram quebrados e muitas inovações organizacionais se viabilizaram ou foram aceleradas”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 12min de leitura

Entrevistamos Luiz Serafim, Head of Marketing, eCommerce & Insights da 3M do Brasil, sobre como a empresa se mantém tão inovadora há mais de 100 anos, e sobre o papel da inovação em tempos de pandemia. Confira.

Você trabalha com inovação em uma das empresas mais inovadoras do mundo, a 3M. Ao seu ver, como a 3M vem se mantendo tão inovadora há mais de 100 anos?

O segredo é manter nosso sistema de inovação em constante evolução, com o cliente no centro de tudo para captarmos suas necessidades, os olhos atentos às tendências para desenharmos os mapas de futuro da organização, o investimento permanente aplicado para se ampliar conhecimento, e principalmente, a manutenção e renovação do ambiente de liberdade, confiança, ética, colaboração, que incentiva o intraempreendedorismo e valoriza as pessoas. 

Tradicionalmente, a 3M é uma empresa de produtos físicos. Como vocês estão se adaptando ao mundo digital?

A 3M continua se orgulhando de manufaturar mais de cinquenta mil itens físicos que melhoram a vida das pessoas, mas navega há anos nas águas da transformação digital, investindo em competências, tecnologias e metodologias para orquestrar o relacionamento com nossos clientes em suas jornadas. Manufatura 4.0, produção de conteúdos digitais, automação de marketing e vendas, treinamentos e reuniões virtuais, desenvolvimento de canais de e-commerce, aproximação de startups e pilotos de venda preditiva com machine learning já são rotina para crescermos em tempos atuais, combinando nossas operações e produtos com a tecnologia digital. É imperativo nos adaptarmos ao mundo digital para continuarmos nossa jornada que já tem 118 anos.

Muitas empresas vêm optando por caminhos específicos para inovação, como departamentos de inovação, laboratórios de ideias, programas que premiam ideias, ou então designando este papel à área de P&D. Como a 3M lida com isso?  Como você avalia esse tipo de iniciativa, de forma geral?

Em tese, o ideal seria que a inovação fosse uma cultura presente em todas as áreas da organização e não limitada a um departamento ou função. É assim que funciona na 3M. Inovação não é um fim em si mesmo, mas um meio para se atingir um objetivo desejado e todas as lideranças com suas equipes deveriam estar engajadas em desenhar um futuro a conquistar. No entanto, há contextos em que estruturas específicas de inovação, incubadoras internas, educadores de sensibilização corporativa, desafios premiados e outras estratégias catalisadoras contribuem para a transformação organizacional, cultivando um ambiente favorável, acelerando projetos, conectando a empresa com o ecossistema de inovação de maneira mais focada. Não existe uma única maneira correta de se buscar a inovação, mas o sonho é que a competência permeie toda a empresa e seja praticada por todos para criação de valor para as pessoas.

O que caracteriza uma cultura de inovação, ao seu ver? E como desenvolvê-la dentro de uma empresa?

O elemento chave da cultura de inovação é ter o cliente no centro dos esforços da organização. Inovação serve para criar valor e só poderemos ter sucesso nessa intenção se entendermos necessidades, angústias, comportamentos das pessoas. Outro ponto essencial é a busca permanente de conhecimento, usando a curiosidade para entender os contextos, construindo repertório, aplicando criatividade para solucionar problemas e testando experimentações, o que requer certo apetite para tomadas de risco. Por fim, é fundamental construir um ambiente que proporcione segurança psicológica aos funcionários, uma atmosfera colaborativa e tolerante a erro, um espaço meritocrático, que dê autonomia às pessoas e que tenha um balanço entre curto prazo e visão inspiradora de futuro. Vale ressaltar que as atitudes e compromissos da alta liderança e seu desmembramento para os demais líderes tem um impacto gigantesco na moldagem diária da cultura de inovação.

Considero que desenvolvimento das lideranças é a primeira alavanca para transformar a mentalidade e cultura da empresa. Também é delicioso pensar que a jornada da inovação não tem fim, pois clientes, pessoas, tecnologias, processos, tudo muda o tempo todo e mesmo uma cultura que hoje é positiva tem que se renovar continuamente para não se tornar obsoleta, anacrônica.

A abertura da 3M para novidades vai muito além da questão dos produtos. Um exemplo, entre inúmeros, é a colaboração com a Hering na criação de uma linha de roupas do Post-It, uma marca da 3M. Essas parcerias são comuns no mundo da moda, mas praticamente inexistentes nos tipos de mercado em que a 3M atua. Como esse tipo de iniciativa geralmente tem início na empresa? E como se desenvolve?

A 3M sempre foi muito aberta a oportunidades e convites. Essa postura acessível é um comportamento importante para inovação e espelha como cultivamos as relações humanas, sempre com respeito e interesse. Nem toda empresa adota este valor, mantendo líderes  arrogantes, insensíveis, sem empatia. Muitas vezes, a ideia vem de fora e nossos líderes recebem as propostas com entusiasmo para avançar em sua execução.

A Hering trouxe essa ideia genial de usar a marca Post-it em uma coleção e imediatamente embarcamos no projeto. Há anos, fizemos uma parceria com a FIA que trouxe uma ideia de montar de maneira pioneira cursos de inovação com nossa parceria de conteúdo e marca na região de Campinas. Outras vezes, nossos intraempreendedores é que saem a campo para semear possibilidades.

No contexto da pandemia, pedimos e recebemos a colaboração de varias empresas de logística para levar gratuitamente nossa doação de máscaras para hospitais de Manaus. Nos projetos culturais que patrocinamos há anos, como a Mostra 3M de Arte, Prêmio Brasil Criativo ou Pixel Show, costumamos ir muito além do investimento monetário, doando nosso tempo, ideias, conexões para o melhor resultado possível. Essas ideias sempre dependerão das pessoas, o ingrediente mais fabuloso do sistema de inovação. E para vingar, os projetos devem ser implementados por equipe multidisciplinar e diversa, com o poder mágico da colaboração.

Fala se muito sobre o espaço para o intraempreendedorismo nas organizações como plataforma para a inovação. Como você vê esse aspecto? E como funciona na prática?

A 3M é uma fábrica de intraempreendedores. Muitas das empresas de inovação foram criadas por inventores. Somos uma exceção, fundada por empreendedores na virada para o século XX. Sua cultura, desde muito cedo, apostou em delegar responsabilidades e encorajar as pessoas a tomarem iniciativas para que a organização pudesse crescer. Parodiando a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei Dom Manuel, o “intraempreendedorismo é a principal semente que devemos lançar no solo organizacional”… Para florescer, é essencial desenvolvermos líderes com mentalidade não centralizadora, que ofereçam liberdade e apoio para sua equipe opinar, criar, liderar projetos, que estejam comprometidos com o crescimento das pessoas. Na 3M, desde os anos 1.950, cultivamos a regra de proporcionar 15% do tempo dos profissionais de P&D para projetos pessoais.

Regularmente, temos encontros e rodadas de inovação para compartilhar, garimpar e financiar projetos inovadores. É muito comum termos jovens profissionais liderando projetos complexos, sendo expostos a desafios importantes, contando com o apoio de colegas mais experientes. É preciso disseminar um valor de humildade para ouvir todas as pessoas e estar acessível a qualquer um que venha com uma ideia de potencial, além de promover a tolerância ao erro de descoberta.

Estamos passando por um momento delicado, com a pandemia do covid. Qual é, ao seu ver, o papel da inovação nesse contexto?

O caminho da inovação é atender uma necessidade humana de maneira original, melhor do que as alternativas existentes, criando valor percebido e gerando resultados. Para muitas empresas, no contexto da pandemia, inovar significou encontrar uma rota de sobrevivência. Os restaurantes, lojas, academias, clubes e casas noturnas que fecharam as portas, os artistas que perderam seus palcos, as escolas que ficaram vazias, entre tantas áreas. Migrar com urgência para o e-commerce, delivery, aulas virtuais já foi um tremendo desafio de inovação. Melhor ainda quando conseguimos adicionar diferenciação a essas inovações óbvias. Na faculdade em que leciono, não só migramos para aulas online como nos dedicamos a aprender técnicas e ferramentas bem como aproveitamos para oferecer novos produtos em formatos diferenciados aos estudantes.

Em outras situações, tabus foram quebrados e muitas inovações organizacionais se viabilizaram ou foram aceleradas como o home office, as reuniões virtuais, os treinamentos à distância, as lives e webinars, entre outros. E por fim, muitas oportunidades surgiram, comportamentos mudaram e tendências se desenharam, abrindo espaço para novos produtos, serviços e modelos de negócio. Como sempre, a inovação tem o papel de criar valor e trazer resultados, dentro de cada contexto, seja ele adverso e restritivo ou positivo e abundante.

Como a 3M foi impactada? E como vem lidando com isso?

Primeiro, fizemos um ajuste gigantesco das operações para garantir a saúde dos funcionários, a maior prioridade da empresa. Desde março, o pessoal de escritório migrou para home office e as fábricas incorporaram protocolos rígidos de segurança. Em seguida, empreendemos enorme esforço para atender a demanda do mercado por máscaras PFF-2, tão importantes para os profissionais de saúde e seguimos fortes em diversas áreas como limpeza doméstica e indústria de alimentos. Por outro lado, sentimos a queda do mercado automotivo e de produtos dentários, entre outros. Felizmente, somos uma das empresas mais diversificadas do mundo que traz um certo equilíbrio em tempos difíceis.

A ansiedade e preocupação das pessoas numa quarentena interminável também apareceram enquanto uma gestão financeira cautelosa, adiamentos circunstanciais e certos ajustes precisaram ser implementados. De qualquer modo, a 3M sempre surpreende com sua cultura tão otimista, positiva e transparente que, nestes momentos mais críticos, acentua ainda mais o sentimento de união, o comprometimento ágil, as abordagens criativas e o respeito humano. Olha que eu sei bem o que estou dizendo, pois respiro e inspiro na empresa há 25 anos. Tenho dezenas de belas histórias para contar que nasceram na pandemia.

Olhando para o mercado de forma geral, quais são, na sua opinião, os exemplos, de qualquer empresa, que mais te chamaram a atenção no contexto de inovação e reinvenção nesse momento de pandemia. E por que?

O que mais se destacou foi a aceleração da transformação digital para que restaurantes, lojas de varejo, escolas, serviços e tantos outros negócios sobrevivessem. Neste caminho, lembro de histórias interessantes como a Hirota Foods com sua frente de mercadinhos de self check-out dentro de condomínios, a Gympass e seu modelo de negócio adaptado para aulas online, Prevent Senior e Sabin investindo na telemedicina e implantando drive-thrus para coleta de exames, o Hotel HomeSuiteHome de Amsterdã oferecendo experiência de hotelaria na casa das pessoas.

Ao mesmo tempo, vimos as ferramentas de videoconferência como Zoom e Teams virarem parte de nossa rotina diária. Outras tecnologias emergentes avançaram como a logística com robôs e drones, da Starship Technologies, IFood ou Rappi para entrega de comida. Mas eu vibro especialmente com inovações solidárias e colaborativas das organizações como o movimento Não Demita ou Vamos virar o Jogo, as ações da Ambev para produção de álcool em gel e oferta de 100 leitos para o hospital do M’Boi Mirim junto com parceiros, as mudanças da mídia televisiva para comunicar realizações sociais das empresas.

Na 3M, temos vários exemplos em que nossos funcionários voluntariamente doaram horas de trabalho para conserto de respiradores e construíram parcerias com universidades para produzir itens importantes no combate à pandemia. Que esse comportamento genuinamente solidário e mais colaborativo que surgiu na pandemia se intensifique como um legado positivo para nosso futuro.

Pra finalizar, o que você prevê de mudanças pela frente, que podem representar oportunidades de inovação pela frente?

Quando você se apaixona por inovação e entende seus pilares, descobre que não se trata somente de tendências ultratecnológicas como viagens espaciais e inteligência artificial. É sempre mergulhar no ser humano, entender suas necessidades e surpreendê-lo com uma oferta percebida como superior. Um passatempo que tenho é colecionar ideias ao longo do dia de produtos e serviços que poderiam ser diferentes, melhores, surpreendentes. Entretanto, claro que a pandemia acelerou a transformação digital, estimulou a compra online, vem afetando o mercado de imóveis corporativos, trouxe maior preocupação com higiene e segurança, influenciou decisões de moradia e cuidados com o lar.

Experiências físicas e presenciais tiveram que migrar para o mundo digital, mas ainda precisam evoluir muito. Fora da pandemia, já estavam no caldeirão os desafios da mobilidade urbana, educação, saúde, compliance, revolução de manufatura e supply-chain, sustentabilidade, crédito, alimentação saudável, equilíbrio emocional, diversidade e inclusão… a lista de oportunidades é infinita para usar a Inovação como o meio de trazer resultados para nosso objetivo de criar uma sociedade mais justa, sustentável, diversa, feliz, com o ser humano no centro de tudo. Da mesma forma plena e harmoniosa que vocês vêm fazendo no festival Hacktown.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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