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HackTalks 2020

“Estamos numa época em que músicos independentes podem facilmente ter suas músicas em filmes, séries e programas de TV”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 7min de leitura

Entrevistamos Brian Vickers, supervisor musical na The Walt Disney Company, responsável por selecionar músicas para trailers de filmes como “Star Wars: Os Últimos Jedi”, “Mad Max: Estrada da Fúria”, “Vingadores: Guerra Infinita”, “Pantera Negra” e “Os Incríveis 2”. Confira.

Brian, conte-nos um pouco sobre você e sobre a sua carreira.

Eu gosto de música desde criança. Comecei a cantar no coral da igreja e depois estudei música na faculdade. Crescendo, eu assisti muita TV e muitos filmes. Mas eu também tinha um forte amor pela música. Então eu comecei a prestar atenção nisso. E ficou super perceptível para mim quando “The Bernie Mac Show” estava passando na TV. Fiquei muito interessado nessa área de trabalho.

Depois que terminei os estudos, acabei fazendo estágio em uma produção de TV na Bunim / Murray Productions. Foi lá que aprendi tudo sobre licenciamento e sobre todo o processo de supervisão musical. Foi uma ótima escola e pude me desenvolver trabalhando com uma equipe incrível.

Em seguida, comecei a trabalhar com trailers de filmes e consegui um emprego em uma das maiores empresas de trailers de Hollywood, a Trailer Park, Inc. Atualmente, trabalho como supervisor musical na equipe de trailers da Disney, “The Hive”.

Como começou a sua relação com a Disney? Como é trabalhar em uma empresa tão incrível?

Bem, eu costumava checar sempre nos fóruns de trabalho qualquer coisa relacionada à música. Um dia, me deparei com uma vaga de emprego de supervisor musical. Acabei não conseguindo essa vaga, mas um atual colega de trabalho conseguiu. Com ele, aprendi tudo sobre a empresa e sobre o programa com o qual ele trabalhava, e depois acabou dando certo. 

É realmente excelente trabalhar para uma empresa tão incrível como a Disney. Nesse tempo, tenho trabalhado com vários sucessos de bilheteria, incluindo 3 dos 5 dos filmes com maior bilheteria de todos os tempos. Sou grato e feliz por isso.

Qual é o papel de um supervisor musical? Quais são os principais elementos do seu trabalho?

As pessoas geralmente conhecem o trabalho do supervisor musical como a pessoa que seleciona a música para filmes e programas de TV. Embora isso seja verdade, não é só esse o trabalho. Um supervisor musical também precisa garantir que as músicas se encaixem dentro do orçamento, trabalhar para que a música esteja devidamente resolvida e licenciada para o projeto, e lidar com várias tarefas administrativas para garantir que a música esteja prontamente disponível para a equipe criativa.

Como a supervisão musical para trailers se diferencia da supervisão para filmes e anúncios?

A supervisão musical para trailers é bem diferente da dos filmes e dos anúncios de várias maneiras. O tempo de resposta exigido para os trailers é muito rápido. A velocidade é uma das maiores diferenças. Nossa equipe tem expectativa que tenhamos a música certa com muita rapidez, já que esse também é o prazo que eles tem para entregar o produto final. Além disso, o som demandado é diferente. Os trailers geralmente usam músicas específicas, que chamamos mesmo de músicas de trailers. Portanto, é um som dedicado com suas próprias nuances. Normalmente, as pessoas com quem trabalhamos para conseguir as músicas são especialistas em trailers, e já entendem o que geralmente procuramos.

Como você pesquisa e descobre música?

Recebo muitas e muitas correspondências de gravadoras, bibliotecas de música e de empresas de sincronização. Por isso, tento analisar o máximo possível, ou pelo menos classificar os melhores remetentes para que eu os receba rapidamente.

No que diz respeito à descoberta de músicas, sou um grande fã do Shazam. Quando saio para locais públicos, fico identificando as músicas que tocam e que gosto e, então, salvo na biblioteca de músicas do meu Shazam para ouvir com mais calma depois. Além disso, também exploro muitas playlists e gráficos do Spotify para ver o que há de novo e para me manter atualizado com as tendências.

Você trabalhou em projetos variados como “Star Wars: Os Últimos Jedi”, “Mad Max: Estrada da Fúria”, “Vingadores: Guerra Infinita”, “Pantera Negra” e “Os Incríveis 2”. Como sua função muda de projeto para projeto? 

Eu não diria que meu papel muda, mas sim que a abordagem muda. Cada campanha cinematográfica tem certos desafios e, portanto, tudo precisa ser cumprido e discutido com nossa equipe criativa. Nosso objetivo é jogar o jogo longo, sabendo que, em alguns casos, a música pode até ser aproveitada pelos cineastas. Então, analisamos como queremos criar mas, no fim das contas, o objetivo é descobrir a melhor maneira de atrair o maior número possível de pessoas que se interessem pelo filme. Essa é uma tarefa que varia de projeto a projeto.

Na busca por trilhas de trailers, você dá alguma priorização a talentos ainda “não descobertos”? Como você lida com isso?

Quando se trata de uma música para trailer, é essencial que haja algo nela que a faça se destacar de alguma forma. Pode parecer genérico, mas como temos contato com tantas músicas, o tempo todo, aquelas que têm algum tipo de qualidade de destaque são as que têm maior chance de colocação. Seja um artista de uma grande gravadora ou um artista independente, a música precisa ter algum tipo de qualidade que cause grande impacto nas pessoas.

Eu geralmente prefiro músicas que tenham uma emoção específica e dedicada que funcione bem sob a parte visual. Isso significa que tal música me desperta as emoções de felicidade, tristeza, ou de “estamos nos apaixonando”, ou de “estamos prestes a terminar”, ou de uma briga está prestes a acontecer”. Emoções definidas e claras são as que mais se destacam.

Falando em artistas independentes, que dicas você daria para que consigam emplacar suas músicas em filmes e afins?

Estamos numa época em que músicos independentes podem facilmente ter suas músicas em filmes, séries e programas de TV. Há muitos caminhos para se chegar lá – seja na televisão, no cinema ou nas diversas plataformas de streaming (Disney +, Hulu, Netflix, Amazon, Quibi, etc.). Embora eu saiba que todo mundo tem vontade entrar grande em um filme ou programa de TV, há muitas outras oportunidades para que esses artistas não apenas criem currículo, mas também recebam royalties regularmente. 

Além disso, é uma boa ideia descobrir qual é a força do seu som. Descubra no que você é melhor. Em seguida, descubra quem está usando esse tipo de som. Depois, procure quem, especificamente, está trabalhando em projetos que buscam músicas que se encaixem no seu estilo.

O melhor caminho é os músicos entrarem diretamente em contato com você? Qual é o seu conselho para as pessoas entrarem em contato com um supervisor musical?

Alguns músicos entram em contato comigo diretamente. No entanto, aconselho que entrem em contato com as empresa de sincronização, editores e bibliotecas de música. Preferimos assim já que muitas vezes esses profissionais podem controlar a qualidade das músicas enviadas e, ao mesmo tempo, aconselhar os músicos sobre como sua música pode ser melhor utilizada. Esse normalmente é um plano de ação melhor. 

Se você quiser fazer isso por conta própria, tudo bem. Mas é importante ficar claro que é bem mais difícil para novatos e independentes cultivar relacionamentos com supervisores musicais. Embora alguns supervisores de música realmente busquem músicas novas e ainda não “descobertas”, entrar em contato com eles costuma ser um longo caminho. Portanto, tudo depende da linha que você escolher como artista.

O que artistas, bandas e compositores independentes devem e não devem fazer ao entrar em contato com essas empresas ou com supervisores musicais?

O que deve ser feito: 

Assista a muitos programas de TV, filmes e comerciais, e ouça bem as música. Analise bem o que você ouviu e coloque sua música lado a lado com o que foi escolhido. Ou então, tire o volume e coloque sua música para ver se ela pode funcionar no lugar.

Tenha sua música disponível em vários formatos digitais (AIFF / WAV, MP3) e tenha versões instrumentais para todas as músicas que possuam vocais.

Tenha todas as bases da sua música – mantenha as gravações completas de cada um dos elementos em separado (bateria, teclas, guitarras, vocais, etc).

Tenha sua música e todas essas exigências prontamente disponíveis para uso rápido. As coisas mudam rapidamente e, se você quiser tentar, tem que estar sempre pronto.

Tenha sempre a melhor qualidade de produção em mãos. Tudo o que você faz deve estar sempre no nível de produção que “possa ir para o rádio”. Lembre-se de que sua música terá que competir com muitas outras músicas. E você, é claro, quer ter as melhores chances.

O que não deve ser feito:

Nunca use samples sobre os quais você não tenha direito de uso comercial. Se você tiver samples na sua música, é muito provável que ela, legalmente, não poderá ser usada. 

Nunca envie músicas que não caibam exatamente no que o supervisor está procurando. Se você não tem as informações, tudo bem. No entanto, o quanto mais alinhado com o que é buscado, menos tempo o supervisor irá desperdiçar. E isso conta muito.

Falando sobre os seus projetos, há algum em particular do qual você mais se orgulha? 

De todos os projetos em que trabalhei, meu favorito pode ser o teaser que fizemos para “A Dama e o Vagabundo”, na Disney +. Foi muito especial para mim pois pude trabalhar com uma incrível produtora musical, a The Hit House, e consegui que minha esposa cantasse neste trabalho. Foi muito especial poder contar com ela em um trabalho meu. Além disso, outro trabalho que me orgulhei muito foi “Vingadores: Ultimato”, por ter se tornado o filme de maior bilheteria da história.

O que você pode contar sobre seus próximos projetos?

É difícil dizer, pois muitos dos projetos em que estamos trabalhando mudaram o cronograma de produção. Além disso, eu realmente não posso adiantar nada sobre o que vem por aí. No entanto, dá pra dizer que teremos alguns filmes incríveis que vão ser lançados assim que o público puder retornar aos cinemas.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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1 Comentario

  1. Marcelo Moraes

    21 de julho de 2020 at 16:18

    excelente entrevista

    Responder

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