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HackTalks 2020

Como é trabalhar com Design na Apple?

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 7min de leitura

Depois de 7 anos na empresa fundada por Steve Jobs, o designer Mark Kawano, hoje na Slack, deu detalhes sobre como era trabalhar com design na Apple. Confira.

A Apple é sinônimo do que há de mais avançado e de alto nível em design. No entanto, sabe-se muito pouco sobre o processo de design da empresa. Além de divulgar muito pouco sobre o assunto, a maioria dos funcionários não é permitida nos estúdios de design da Apple. 

Quem acaba trazendo informações a público são ex-funcionários, mas apenas anos depois de saírem da empresa, com seus contratos de confidencialidade expirados. E foi exatamente o que fez o designer Mark Kawano, que passou 7 anos na Apple, e deu detalhes bem interessantes em matéria na Fast Company.

Kawano foi senior designer na Apple, atuando nos projetos do Aperture e iPhoto, e, logo após o lançamento do iPhone, se tornou User Experience Evangelist, direcionando terceiros que desenvolviam apps para iOS a criar programas que tirassem o melhor da plataforma. Ele deixou a empresa em 2012.

Atualmente parte da equipe de design da Slack, Kawano falou abertamente sobre como é trabalhar com design na empresa fundada por Steve Jobs, listando o que considera os 4 mitos em relação a isso. Confira.

Mito 1: a Apple tem os melhores designers

Na visão de Kawano, o maior equívoco em relação ao design da Apple é a crença geral de que os produtos são projetados com excelência e têm uma experiência do usuário melhor do que o normal porque a Apple tem a melhor equipe de design do mundo ou o melhor processo de design do mundo. Segundo ele, não é bem assim.

Kawano conta que, na verdade, o que faz a diferença é a cultura da engenharia, que realmente apoia, valoriza e aprecia o pensamento e o trabalho de design, e toda a estrutura da empresa é pensada para que isso aconteça. “Todo mundo lá pensa em design e UX o tempo todo, não apenas os designers, e isso é o que torna os produtos melhores do que o restante”, conta. “É muito mais do que o trabalho de um indivíduo ou de uma equipe”.

Para Kawano, muito se diz no mercado de que o design deve começar no topo, de que, se o CEO se interessa pelo design tanto quanto os designers, o papel do design será muito mais forte. E na Apple, diz ele, o que Jobs fez não foi ter uma postura top down que forçasse o papel do design, mas, pelo contrário, foi criar uma cultura em que só sobrevive quem valoriza design. “É por isso que a estrutura funciona tão bem”.

Segundo ele, “não tem ninguém com superpoderes trabalhando na Apple”. O que acontece, na visão de Kawano, é que na Apple realmente se há tempo para o design dos produtos. Na maioria das empresas, diz, o design tem que brigar pelo seu papel na mesa, ou se frustra por não ser ouvido, ou por não ter tempo hábil para que seja bem feito, ou porque a engenharia não gostou do design e decidiu ir por outro caminho. Na Apple, é essa a diferença. O design está no centro de tudo.

Kawano conta que lá, todo mundo, dos engenheiros às equipes de marketing, pensa como designer. Isso permeia até mesmo a forma como o RH contrata. “Assim como o Google contrata quem pense como Googler”, diz, “a Apple só contrata gente que realmente pensa e toma decisões com um mindset de design”.

“Você vê muitas empresas contratando ex-designers da Apple e criando interfaces interessantes, mas no fim do dia, isso acaba não impactando em nada seus negócios ou produtos”, afirma. “Isso porque tudo que o designer fez foi trabalhar em uma peça de interface, mas sem ter um produto bem projetado à maneira que Steve diria, de forma “holística”. Kawano frisa que não é apenas o trabalho do designer. A diferença está em projetar o modelo de negócios certo para aquele produto, considerando cada peça, cada ângulo necessário. “Não é só interface. É fazer o melhor design do marketing, da maneira de distribuir aquele produto, é algo muito maior. Todas essas peças são críticas”, acrescenta.

Mito 2: o time de design da Apple é infinito

O Facebook tem centenas e centenas de designers. O Google deve ter mil ou mais. Mas quando Kawano estava na Apple, seus principais produtos eram todos projetados por um grupo relativamente pequeno, com um total de aproximadamente cem designers na empresa toda. “Eu conhecia cada um deles pelo rosto e nome”, diz.

De forma geral, Apple tem um time pequeno de designers especializados, geralmente para criar coisas que vão de ícones a novas interfaces, por exemplo. Segundo Kawano, o que move o design da Apple é o fato da empresa contratar apenas engenheiros que são centrados no design. “Os pequenos times de design contam com os engenheiros para iniciar o processo de criação de uma nova interface de aplicativo, por exemplo, em vez de ter que iniciar seu próprio mock-up primeiro”, destaca. Segundo ele, é menos sobre o trabalho de designers e mais sobre um mindset de design que permeia tudo lá dentro.

No entanto, Kawano destaca que, após o falecimento de Jobs, as coisas começaram a mudar lá dentro. “Ter uma organização pequena e realmente focada fazia muito sentido quando Steve estava lá, porque a maioria das idéias vinham dele. Portanto, ter um grupo menor trabalhando em algumas dessas idéias fazia sentido ”, diz Kawano. “À medida que a Apple mudou para uma empresa em que há várias pessoas no topo, começaram a ampliar a equipe de design de formas interessantes”.

Kawano destaca que, mesmo com essa mudança, Jony Ive, que por décadas liderou a usabilidade em hardware e software na Apple, trouxe parte da equipe de marketing para ajudar a redesenhar o iOS 7, ao invés de contratar mais designers. “É incrível pensar que os profissionais de marketing se aprofundaram nas trincheiras com designers e engenheiros. Esse nível de colaboração é, francamente, sem precedentes”, completa.

Mito 3: cada detalhe é criado de forma intencional


Os produtos da Apple são geralmente definidos por pequenos detalhes, principalmente aqueles relacionados à interação. Por exemplo: quando você digita uma senha incorreta, a caixa de senha treme em resposta. “Esses tipos de detalhes são frutos de momentos que parecem difíceis de explicar logicamente, mas que fazem sentido no nível interno”, destaca.

Para Kawano, muitas empresas tentam imitar esse foco em detalhes, mas acabam fazendo de uma forma que não podem avançar para o próximo passo até que tenham uma animação matadora ou um modelo matador da maneira como os dados são colocados. No entanto, explica Kawano, “a realidade é que é quase impossível criar coisas realmente inovadoras quando você tem um prazo e um cronograma”.

Kawano destaca que os designers e engenheiros da Apple geralmente aparecem com ideias inteligentes durante períodos em que tem mais tempo livre, e acabam trabalhando nelas por anos antes que elas façam sentido em um determinado contexto.

“As pessoas estão constantemente experimentando com ideias e recursos. Como um grupo de pessoas sabe o que outras pessoas experimentaram, sempre que um contexto aparece, muitas dessas experiências se tornam as inovações que farão um produto ou aplicação se destacar. Digamos que precisamos de uma boa maneira de fornecer feedback para uma senha e não queremos que essa caixa de diálogo seja feia”, exemplifica, “capturando experiências feitas nas horas vagas de alguém, certamente acharemos ótimas soluções”.

Porém, “se você estiver imaginando um sistema avançado de compartilhamento de idéias escondidas dentro da Apple, você está errado”, comenta Kawano. “A realidade na Apple”, conta, “era muito mais boêmia do que sistematizada”. Ele destaca que não havia uma biblioteca de ideias formalizada, pois não existe na empresa muita coisa formalizada sobre qualquer informação que pudesse ser roubada. O funcionamento da Apple, segundo ele, é baseado em pequenas equipes sabendo no que as pessoas estavam experimentando, somado a uma cultura de todo os demais confiarem nisso.

Mito 4: a paixão de Steve Jobs assustava todo mundo

Kawano conta que havia uma piada muito comum dentro da Apple de que um designer sempre deveria subir as escadas, pois, se você topasse com Steve Jobs no elevador, ele perguntaria no que você estava trabalhando e duas coisas poderiam ocorrer:

1. Ele odiaria, e você seria demitido.

2. Ele adoraria, os detalhes chamariam sua atenção e você perderia todas as suas noites, fins de semana e férias no projeto.

“A realidade é que as pessoas que prosperaram na Apple foram as que acolheram esse desejo e paixão de aprender trabalhando com Steve”, conta. “Ele realmente dedicava muito ao cliente e ao produto, e muitas pessoas estavam dispostas a desistir dos seus fins de semana e férias para fazer coisas incríveis”. 

Segundo Kawano, Steve Jobs era super acessível, mas também super exigente. Ele gostava de ser democrático e de ser tratado como todo mundo. No entanto, havia, sim, as pessoas que reclamavam que ele não era justo, diz. “Eram as pessoas que não viam o valor de sacrificar um pouco da vida pessoal para criar o melhor produto”. 

“Steve só queria a melhor coisa possível e esperava que todos os outros quisessem a mesma coisa. Ele tinha dificuldade para entender as pessoas que não queriam a mesma coisa que ele, tinha uma tolerância muito baixa para pessoas que não se importavam com as coisas, que não queriam dar seu máximo em prol de um produto incrível. No entanto, para quem quisesse se dedicar ao máximo a fazer coisas incríveis, não havia porque se assustar com Steve”, conclui.


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Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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