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HackTalks 2020

“Vimos a possibilidade de seguir desenvolvendo conteúdos sem precisarmos sair de casa”

Carlos Henrique Vilela
Carlos Henrique Vilela 13min de leitura

Conversamos com Nayara Macedo, do Portal Kondzilla, sobre os desafios impostos pelo Covid, a estruturação da empresa, valorização do social, entre outros temas. Confira.


Conte-nos um pouco sobre sua carreira e sobre seu trabalho no Portal Kondzilla.

Iniciei minha carreira aos 21 anos de idade como cineasta curtametragista ainda durante a faculdade de Cinema. Em 2010 iniciei alguns estudos práticos em novas mídias, tendo esses estudos veiculados em festivais na América do Sul e na Europa. Foi aí que o ambiente da internet como plataforma para o audiovisual começou a me interessar. Partindo dessa tendência, entrei no curso de Publicidade e Propaganda e desde então me dedico à criação, desenvolvimento e pesquisa do audiovisual para redes sociais. Realizei trabalhos para diversas marcas como Ambev, Gomes da Costa, Yachtmaster, Honda, BMW, Netflix, Salon Line, Choose Chicago, entre outras e desenvolvi mentorias direcionadas a empresas que vem se dedicando ao audiovisual no universo digital, que seguem acontecendo.
Hoje, além das mentorias, atuo como Diretora de Vídeo Conteúdo no Portal Kondzilla e ao lado de uma equipe de extrema competência construo o maior portal de comunicação para o jovem de favela no Youtube.

O que o portal representa hoje para o grupo Kondzilla? Quais são os negócios da empresa? E quais os segredos desse sucesso?

O grupo Kondzilla hoje possui três grandes braços: Kondzilla Filmes, Kondzilla Records e Portal Kondzilla. Do canal de videoclipes, surgiram a gravadora e o canal de conteúdo.

O Portal Kondzilla surge de uma vontade do fundador da Kondzilla, Konrad Dantas, de dar voz ao jovem das comunidades e de disseminar conhecimentos e boas práticas construídos nelas e assim segue fazendo. Em meio a inúmeras transformações e adaptações feitas desde o lançamento do canal, uma delas é a valorização da imagem do MC de Funk. Muito restritos às músicas, shows e às suas próprias redes sociais, a maioria dos MCs não costuma ter oportunidades nas grandes mídias de massa. Isso reverbera nas poucas – ou até na falta de – fontes de informação sobre os artistas. O Portal Kondzilla vem preencher essa lacuna, dando lugar às histórias de vida, de luta e de sucesso desses músicos que muitas vezes não tem seus nomes e rostos vinculados às suas obras que viralizam com facilidade entre os jovens. Além disso, o Portal Kondzilla abre as portas para uma comunicação clara com o público do funk e se torna veículo de mensagens importantes para marcas e empresas que pretendem conversar com ele, tendo em vista que é um estilo musical em ascensão e que atinge diretamente o nicho digital composto por essa audiência.

A Kondzilla é um dos negócios mais inovadores do mundo dentro do contexto da música, do entretenimento e de geração de conteúdo. Em termos de cultura da empresa, o que faz com que a Kondzilla seja tão criativa e tão inovadora?

A Kondzilla é inovadora desde seu início. Konrad Dantas vislumbrou na soma do funk com a internet uma oportunidade que se tornou um grande negócio. A internet, a partir do momento em que pôde ser acessada por um grande número de pessoas e por dispositivos variados, se tornou automaticamente um veículo de disseminação da voz das comunidades. E por que não de sua cultura musical? Foi aí que a Kondzilla abriu e segue abrindo espaço para o funk em um mercado cultural ainda construído por poucos e com inúmeras restrições. Isso é facilmente observado no momento em que artistas como Anitta e Kevinho por exemplo, deixam um pouco de lado o funk e passam a criar suas carreiras em torno do Pop.

Apesar disso, o formato de trabalho, o envolvimento de profissionais qualificados (tanto na música quanto no audiovisual) e principalmente o compromisso com o funk e seus artistas, elevou a Kondzilla a um lugar de destaque mundial, sendo hoje a primeira e maior referência no gênero Funk.

A meu ver, um dos maiores passos dado pela Kondzilla foi o de conseguir encontrar um meio de disseminar o funk em sua essência sendo inclusiva e desmitificando a objetificação do corpo feminino dentro do estilo. Isso fez com o que o funk conquistasse o coração de um número muito maior de pessoas que passou a compreender a cultura que envolve a música através de composições que refletem o momento mais consciente que vivemos hoje universalmente. Essa, de fato, é uma das razões que colocam a Kondzilla no topo que ocupa hoje.

Como funcionam as coisas por aí, em termos de dinâmica de trabalho?

Hoje o Portal Kondzilla conta com uma equipe de aproximadamente 11 pessoas. Diferente da Kondzilla Filmes, somos uma equipe relativamente pequena e costumamos discutir entre todos nós a relevância e os formatos de cada um dos vídeos. Como equipe, temos toda a liberdade para criar e é desse conjunto de mentes criativas que surgem os resultados que vocês podem assistir no canal.

Nos preocupamos bastante com o casamento entre a imagem de cada personagem com os resultados que queremos obter, sempre pensando na mensagem que queremos deixar para a audiência. A construção desses conteúdos também vem sendo sempre moldada pelos próprios convidados, mantendo a premissa de proporcionar protagonismo aos MCs e aos jovens que ganham esse espaço de fala. Esse protagonismo vem sendo característica marcante hoje em todas as redes sociais e é partindo daí que construímos nossa grade de programação.

Como o Covid-19 impactou o trabalho de vocês? Como vocês vem se transformando para se adequar às mudanças?

No início da quarentena, assim como para todo mundo, nossa preocupação foi grande. Somos uma produtora audiovisual e a impossibilidade de realizar gravações nos pegou de surpresa. Mas não foi apenas nesse sentido que nos vimos preocupados. Desde o princípio imaginávamos como seria uma questão difícil e complexa o fato de um vírus com letalidade relativa atingir as favelas. Como todos sabemos, o Brasil é um país que ainda sustenta abismos sociais profundos e a reflexão sobre o impacto desses abismos sempre acaba surgindo de formas trágicas. Pensando nisso, foi quase instantânea a criação de uma série de vídeos informativos que pretendiam a atualização e o direcionamento do nosso público com relação à pandemia e aos cuidados a serem tomados. Moradores de várias comunidades nos enviaram vídeos com seus relatos e esta série se tornou o “Plantão Coronavírus” do Portal Kondzilla, que foi veiculada entre os meses de Março e Abril.

Foi a partir do primeiro episódio desta série que vimos a possibilidade de seguir desenvolvendo conteúdos sem precisarmos sair de casa, tendo o coronavírus como tema ou não.

Hoje, eu, Vanessa Coscia, também diretora de vídeos, e toda a equipe, conseguimos desenvolver um formato online de direção que nos permite a gravação com os celulares (e outros dispositivos) pessoais de cada convidado enquanto direcionamos a gravação das imagens e o conteúdo proposto. Neste momento, percebemos que os conteúdos pediram uma transformação estética, com os próprios convidados assumindo outro tipo de protagonismo: o da imagem.

A internet já vinha apontando outro tipo de compromisso estético há algum tempo, mas a quarentena veio acelerar esse processo, colocando grande parte dos conteúdos veiculados na responsabilidade de câmeras de celular e microfones com fones de ouvido.

A empresa tem uma pegada social e de inclusão muito forte. O que vem sendo feito nessa direção?

A Kondzilla, no geral, levanta posicionamentos e valores muito claros para que cada produto seja direcionado de forma atual e consciente.
O canal Portal Kondzilla preza muito pela variedade de temáticas e busca sempre atender todos os públicos. Além de abordarmos de forma única o universo do Funk e suas personalidades, o editorial busca abrangência principalmente nas pautas femininas e LGBTQ+, que são questões diariamente discutidas nas redes mas que ainda necessitam de visibilidade. A relevância cada vez maior das vozes femininas e do público LGBTQ+ no mundo da música são resultado de inúmeras barreiras que foram se quebrando ao longo de anos. Isso fez com que contar essas histórias e abrir espaço para o tema se tornassem missões do Portal Kondzilla. O funk é um estilo musical democrático e existe forte tendência para que isso permaneça assim. Nosso objetivo é que essas vozes sejam ouvidas pelo maior e mais diverso número de pessoas.

Indo na sua área específica de trabalho, quais são as percepções sobre o futuro do audiovisual (principalmente nas redes sociais) a partir da situação do COVID-19?

Como dito anteriormente, as redes sociais vem há anos abrindo espaço para produções cada vez mais ‘caseiras’ e hoje podemos ver como essa linguagem se firmou.

Andy Warhol registrou em 1968: “No futuro, todos terão seus quinze minutos de fama.”. Aparentemente nós finalmente alcançamos o futuro de Warhol e isso, a meu ver, se deu principalmente por conta da democratização do audiovisual.

Como todo acontecimento histórico impacta diretamente nas próximas ‘versões’ da sociedade, isso não seria diferente com o COVID-19 e nem com o audiovisual. Fomos surpreendidos com a necessidade de uma quarentena relativamente longa e as telas e câmeras que carregamos nos nossos smartphones tem sido nossa janela, não só para o mundo, mas para os amigos, para a família, para o trabalho e principalmente para a criatividade. Somando plataformas cada vez mais populares e dinâmicas como Tik Tok, Instagram e Zoom com o distanciamento social que estamos enfrentando, o resultado tem sido uma avalanche de produções que de tão numerosas, passaram a ser feitas também ao vivo. De shows a palestras. De festas a bate-papos.

É impossível falar sobre essa tendência sem se atentar para o valor real de cada conteúdo, que vem sendo cada vez mais valorizado. Por mais que tenhamos as mesmas possibilidades técnicas, o que dizemos e como dizemos se torna enfim, o verdadeiro diferencial. Isso me faz retornar à ideia de protagonismo do indivíduo e em como isso muda a articulação do mercado de criação de conteúdo para grandes audiências.

A perspectiva é que mesmo com o fim das quarentenas, a tecnologia passe a explorar ainda mais as necessidades e praticidades desses novos formatos, atendendo às demandas de um mundo que concentra sua atenção em telas de 6 polegadas, formatos verticais e interações digitais em tempo real.

Para finalizar, quais são os seus principais aprendizados ao longo da carreira, que gostaria de compartilhar com um público que tem vocês como referência, como novos artistas em busca de reconhecimento, além de novos produtores audiovisuais em busca de mais espaço?

Em 13 anos de carreira percebi que fórmulas só são realmente valiosas para quem se sente livre para somar a elas. Quando decidi iniciar minhas práticas com as novas mídias, o celular que eu tinha em mãos era um Sony Ericsson W580, na época em que as tecnologias móveis ainda se voltavam muito para a otimização do áudio. Dessa forma, as câmeras ainda eram extremamente restritas e consequentemente, as possibilidades eram quase nulas. Ainda assim, foi com esse celular que comecei a vislumbrar um mundo onde todos nós teríamos câmeras de fácil acesso e foi questionando a centralização do audiovisual que me senti de fato livre pra dar asas à minha criatividade e me desprender de fórmulas já mastigadas tantas vezes. Vejo portanto, que meu maior aprendizado acaba fazendo tanto sentido hoje quanto fazia naquela época e é por isso que num universo com tantas possibilidades como o que vivemos, concluo que todos nós podemos e devemos abrir nossos próprios espaços, com o máximo de liberdade possível para sermos sempre mais inovadores e mais relevantes. A liberdade de criação sempre foi e sempre será valorizada.

Carlos Henrique Vilela

Cofundador, Head de Curadoria do HackTown / Head de Marketing e Inovação na Leucotron / Head de conteúdo do HackTalks

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